Quase-haikai I

Espantalho, de Portinari
1.
Braços para o infinito
o espantalho subverte
a ferocidade do mundo2.
Entre o sono e a vigília
o canto da cigarra
inunda o sertão

3.
Noctívaga dor-em-dor
pouso na árvore do mundo
clandestina

4.
Porque és pedra
o que dirá a poesia
sem a tua presença?

5.
Dias de sol
distendo as velhas asas
num hai kai latino

Graça Graúna. Hai kais. In: Canto Mestizo, 1ª parte. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 17-21.

Quase idílio


  

Foto: Lucypassos

…vontade de ficar numa rede
recitar poesia
corresponder aos teus abraços e mais coisas….

quero ao pé da fogueira
ouvir o velho Gonzaga
e profundamente
amar você

– Ao som dos foguetes lá longe
as árvores rodeando, nos vigiando.

– O frio, a gente conversando, lendo na rede
(eu adoro rede e tenho uma que uso para ler)
uma rede para nós dois
nosso leito nupcial

Ao pé da fogueira, tanta coisa!
O licor e o milho
o beijo para dar
o abraço e mais coisas…

uma noite de São João
era uma vez
a festa que ele esperou
e ela também, o ano inteiro.
Num instante, tudo se desfez
e só restou a canção

—- * —-

“Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci” (Bandeira).

Hoje, aos sessent’anos
leio Bandeira
Profundamente

Graça Graúna (indígena potiuara/RN)
Nordeste do Brasil, 25.jul.2008
Nota: no site Overmundo, este poema foi contemplado com votos.

Cumplicidade

Agora e pela hora da minha agonia
louvo Trindade
e Jorge de Lima
cantando
catando
as duras penas
só– De onde vem, Solano, esta agonia?
– Vem de longe, minha nega, de muito longe!
De Africamérica sonhada
lá, donde crece la palma
plantada en versos de alma
del hombre José Martí

– De onde vem, Solano, esta agonia?
– Vem de longe, nega!
Do comecinho das coisas,
de muito longe, nega,
muito longe.

Graça Graúna. Cumplicidade, In: Tessituras da Terra. [literatura indígena] Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.17.

No site Overmundo, este poema recebeu 189 votos.

100 anos de um poeta negro. Solano Trindade nasceu no bairro de São José (Recife-PE), em 24 de julho de 1908. Filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Emerenciana, mais conhecida como Merença. Ele foi pintor, teatrólogo, folclorista, ator e, por excelência, poeta da resistência negra. Em 1936, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro com o objetivo de divulgar intelectuais e artistas negros(as).

Para saber mais, visite a Biblioteca Comunitária Solano Trindade