Mandela, para sempre!

Dores d’África (*)
Eh, meu pai!
Em vez de prantos
é melhor que cantemos.
Eh, meu pai!
É melhor que cantemos
a dor contínua
a solidária luta
de poetas-bantos
contra a tirania
Graça Graúna. Canto mestizo. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 49.
(*)No início da década de 90 escrevi este poema, que foi publicado pela Editora Blocos em 1999; no mesmo ano em que Mandela terminou seu mandato de presidente da África do Sul. Em 5 de dezembro de 2013, o mundo ficou mais pobre; a paz está de luto, mas enquanto houver poesia haverá esperança de um mundo mais justo. Caminhemos na luta pelos Direitos Humanos, inspirados na trajetória de Mandela!
Nordeste do Brasil, 7. Dez. 2013.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Escrevivendo a literatura indígena

15º SALÃO DA FNLIJ
Rio de Janeiro, junho/2013
X ENCONTRO DE ESCRITORES E ARTISTAS INDÍGENAS
Graça Graúna (Povo Potiguara/RN)
A troca de conhecimentos nos une e não poderia ser diferente, considerando que esta é uma das características marcantes do Encontro  de Escritores e Artistas Indígenas[1] que, em  2013, completa a sua 10ª edição.  A cada ano que passa, os desafios se multiplicam; ainda que pareça estranho ao outro que a nossa ligação com a ancestralidade nos autoriza ser chamados(as) de parentes; de filhos(as)as da Mãe Natureza, herdeiros(as) da nossa tão sofrida e amada Mãe Terra.
Aos poucos, vamos saindo da invisibilidade apesar dos incrédulos fingirem em não saber o que já sabem: que estamos em cada esquina; que estamos sobrevivendo da nossa arte e que apesar das barreiras nos valemos do toré, entre outros rituais sagrados.
Quem quiser ver que veja: a nossa literatura é fruto da nossa experiência com o barro, com as ervas, com as sementes, com as folhas das palmeiras, com os cantares e com os lamentos também do mundo animal; a nossa literatura é fruto da nossa vivência com o espírito vigilante/protetor das matas; a nossa literatura é fruto também da nossa sofreguidão oriunda das árvores decepadas pela serra elétrica e das aldeias destroçadas pelo agronegócio.
 A nossa literatura é de paz, embora seja também espaço para denunciar a galopante violência contra os povos indígenas. Porque a nossa palavra sempre existiu, a nossa literatura tem tudo a ver com resistência.  Então, quem quiser ouvir que ouça também o canto dos guerreiros e das guerreiras; o som dos tambores; a voz do vento em sintonia com o voo dos pássaros, o som das águas, o ritmo dos maracás e das marés; o ritmo dos nossos passos na direção do horizonte, como sugere a temática desse Encontro.
Das metamorfoses, quem quiser ver que veja que somos uma parte dos 250 povos indígenas falantes de pelo menos 180 línguas neste Brasil de tantas diversidades. Porque fazemos parte dessa diversidade é que estamos aqui, vivenciando com a alma da palavra os dez anos do Movimento Indígena no campo da Educação e das Artes (Cinema, Literatura, Música, Dança, Teatro, Filosofia, Astronomia, Pintura  entre outros saberes).  Estamos cientes de que por meio da sabedoria ancestral, subvertemos o discurso dominante.
Porque somos um em muitos, estamos aqui, em meio as grandes transformações, confiantes de que sonhando juntos, os nossos sonhos se tornem realidade.  Estamos atentos aos horizontes, como sugere o tema da programação referente ao X Encontro. Qualquer que seja o espaço e o tempo em que os saberes indígenas se manifestem, esses saberes revelam sua estreita relação com a vida que se vive na aldeia ou na cidade grande a cada dia; seja no meio acadêmico ou na educação do campo.
O espaço e o tempo indígenas  podem se revelar  também por meio da oralidade e da escrita sobre o mergulho nas águas mansas de um igarapé; sobre as andanças e danças de amor e guerra que aprendemos a lidar desde a infância ou nos surpreender também com a barra do dia que norteia a nosso jeito de ser e de viver, pois a ciência indígena ensina que fazemos parte da grande teia da vida como afirmam as nossas sábias anciãs e os nossos velhos sábios.
Nessa travessia, somos um e muitos juntos; gerando metamorfoses, buscando horizontes para construir e reconstruir a história, a memória e tudo o que nos foi arrancado ao longo dos mais de 500 anos. Das rodas de conversa surgem os Encontros de Literatura Indígena (em verso ou em prosa); a cada encontro com a palavra indígena, mostramos a nossa luta pela autonomia. A nossa vivência com a palavra indígena sempre existiu. Assim, em meio a essa metamorfose e na condição de integrante da construção dessa literatura, peço licença para intuir o que me vem da imensa floresta de saberes e reiterar que somos um em muitos, como quer a poesia:
 Um e muitos juntos (*)
I
Na travessia:
amassar o barro
dar tempo ao tempo
curar a panela
beber do pote
a água da chuva
e repartir
o que vem da fonte
o que vem da terra
e as oferendas do mar
II
No caminho de volta
no pé da Serra do Mar
vislumbro uma árvore curvada pelo tempo
suas raízes abraçam a terra
e seguem o curso natural das águas
onde mil pássaros alimentam 
seu eterno canto

III
Na travessia, só escuto
e vou tecendo o colar
em meio à saudade
da minha aldeia
(*) 
Graça Graúna (indígena Potiguara/RN),
poema escrito em abril de 2012.
[1] Com o apoio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), da Fundação C&A, do Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual Indígena (Inbrapi), do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas (Nearin),  da Casa dos saberes ancestrais (UKA)  e de  instituições de ensino (púbico e particular, do fundamental ao superior) a cidade do Rio de Janeiro é palco do XV Salão do Livro Infantil e Juvenil que acolhe o 10º  Encontro de Escritores e Artistas Indígenas, em 12 de junho de 2013. 
 

Contrapontos da literatura indígena contemporânea…

Trechos do prefácio de Roland Walter.

[…]
“A valiosa obra de Graça Graúna se insere nesta essência ética por, pelo menos, duas razões fundamentais. Primeiro, o enfoque analítico é a literatura/ cultura ameríndia brasileira e segundo, implícito neste processo descolonizador, a contribuição para a constituição de um corpus crítico crescente sobre esta literatura/cultura num país onde os indígenas constituem a margem interior da diferença cultural.
[…]
O trabalho de Graça Graúna como escritora e crítica literária, portanto, abre uma zona de contato em que a oralidade e a escrita indígena brasileira constituem um hífen enquanto fissura e fusão – uma différance – que suplementa e subverte o discurso monocultural do cânone crítico-literário. Desta forma, contribui para a construção de uma encruzilhada crítica e literária brasileira caracterizada por uma verdadeira pluralidade cultural, identitária e étnico-racial.”
Roland Walter (UFPE/CNPq)

Nota: Para solicitar este livro, entre em contato com a autora.