Sarau

Relançamento do livro TEAR DA PALAVRA, poemas de Graça Graúna. Dia do sarau: 07/11/07, às 19:00h, no salão de recepções do Mosteiro de São Bento, em Garanhuns; próximo a Praça Guadalajara. Sarau organizado pelo 8º período de Letras/UPE. Contato: Ir. Basílio, Ir. Marcos e Ir. Tomás Fone: (87) 3761-1592.
Nesse livro, um dos poemas é dedicado à Florbela Espanca:

Escritura ferida

Atiram mil pedras
na charneca em flor.

Ossos do ofício:
no mais fundo do poço
retirar o poema
encharcado de mágoas

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Da Serra dos Ventos para as nossas estantes

É muito gratificante para uma educadora reconhecer as marcas de sua teimosia, de suas exigências, dos ideais libertários, do respeito às diferenças; especialmente as marcas do direito de sonhar que passam a fazer parte da vida de alunos(as) e ou de ex-alunos(as), sobretudo quando enveredam pelo difícil, porém gratificante, caminho das Letras.
Porque é difícil o caminho, nunca é demais saudar os nomes que habitam as nossas estantes e que são parte de nossa alma: João Cabral, Drummond, Cecília Meireles, Quintana, Bandeira, Leminsk, França de Recife, Roland Barthes, Cervantes, Camões, Lorca, Umberto Eco, Alberto Manguel, Cloves Marques e uma infinidade de argilas pensantes que influenciam no jeito de ser e de viver.
Com licença, saúdo um nome que vem lá da Serra dos Ventos: um lugar encravado em Belo Jardim, Pernambuco, Nordeste do Brasil. Trata-se de Robervânio Luciano: um leitor atento, um guardador de sonhos que, em março de 2006, compartilhou de minhas reflexões sobre “hai kais” no Curso de Pós-Graduação em Língua Portuguesa e suas Literaturas, junto à Universidade de Pernambuco (UPE) Campus de Garanhuns e à Faculdade de Belo Jardim (FABEJA).
Numa conversa informal, nos intervalos das aulas, sugeri algumas leituras; a começar pelo mestre Bashô. Na ocasião, eu estava relendo (no original) 365 haicais de sol e chuva, do haijin Cloves Marques. Não conversamos sobre a vida do poeta, mas como o poeta fala da vida; de como o leitor também pode ser um grande observador (e por que não dizer, guardador do tempo?) a tal ponto, que 365 dias não bastem para falar de poesia, história, desigualdades sociais, morte, vida, direitos humanos, cidadania, identidade…Eis alguns exemplos da poética de Cloves Marques:Bem a luz do dia,
a fome assalta o homem.
A justiça espia.

Uma cuia d’água
à sombra do umbuzeiro,
o sol tudo espreita

Olhares-lamentos.
Ah! A boca da caatinga
come os pensamentos

Sim, pescar siri
no mangue, com Deus por todos,
cada um por si.

Um canto pungente.
O caçador viu o ninho,
visão inclemente.

Ribaçã à venda.
Na feira do tira-gosto
mera encomenda.

O riacho vai
com recados para o rio,
ao mar, um haicai.

Então, foi desse modo que surgiu um quase-roteiro que ora se transforma em importante contribuição de Robervânio à pesquisa literária; um estudo da literatura nordestina metamorfoseada em “hai-kais”. Por isso, cabe enfatizar que é, para mim, um prazer renovado o ato de refletir o ser e a poesia (de sol e chuva) em Cloves Marques.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)