“POÉTICAS INDÍGENAS: da nossa Mãe Terra e outras histórias” com a escritora e pesquisadora indígena Potiguara/RN, Graça Graúna. O curso irá abordar a poesia e saberes indígenas a partir do processo de elaboração da escrita e vivência na obra Literária de Graça Graúna.
DATAS: 04, 11, 18 e 19 de Abril – às Segundas-feiras HORÁRIO: 09:30 às 11:00 Turno: manhã Curso Online
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O texto que segue é um fragmento/releitura da crônica “re-tra-tos”, de minha autoria e que foi publicada pela UNICAMP no projeto p-o-e-s-i-a: um dossiê sobre poesia contemporânea.
Lilia/Noemia. Crédito: Claramor
[…] O tempo marcado pela memória alcança um pouco mais de um século de existência; 101 anos de idade, que hoje (17 de março) faria a minha mãe: Dona Noemia, chamada também de Lilia.
Ela nasceu em Nova Cruz/RN e na infância migrou com minha avó Conceição (Vó Ção) para o distrito de São José do Campestre: atualmente, uma pequena cidade que fica a poucos quilômetros de Canguaretama e Goianinha. Entre esses dois municípios vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu/RN.
Da convivência com a minha mãe, eu teço entre as recordações mais fortes o dia em que ela juntou a filharada (quatro meninas e dois meninos) e com paciência e criatividade nos ensinou a fazer do comum o incomum. Nessa época, por volta dos anos 60, morávamos perto de uma antiga fábrica de enxofre, no bairro do Ibura, em Recife. Um dia, a empresa Pernambuco Tramways cortou a luz da nossa casa. Aos troncos e barrancos sobrevivemos à luz de vela. Essa foi uma das lições de resistência, resiliência, sobrevivência e de fazer parte do coletivo (dentro da família) que intui ao ver Lilia reunir as crias para transformar um velho travesseiro em pavios, e acender a única e velha lamparina de querosene que havia em casa.
Tentei por inúmeras vezes fazer um relato desse acontecimento e me veio, primeiro a ideia de manejar uns versos. Quis escrever para falar do desfecho da história, mas nem sempre a crua realidade cabe em um poema.
[…] ao fazer dezenas de pavios, acompanhei (na condição de filha mais velha) a minha mãe até à mercearia, onde ela vendeu os pavios e comprou cadernos e alguma mistura para o feijão. Chegamos em casa contentes pela façanha. Dias depois, ainda à luz da vela, voltei com Lilia até à mercearia para comprar alguns dos pavios que tecemos, mas não tínhamos dinheiro. Ao comprarmos no fiado, o dono da mercearia (todo arrogante) debochou do nosso trabalho, numa sentença: “um dia da caça, outro do caçador”. Voltamos para casa, de cabeça baixa e envergonhadas pela humilhação.
[…] tempos depois escrevi um poema chamado Tecelã, em homenagem à Lilia e a todos e todas que à luz dos Encantados e dos Ancestrais intuem que a palavra tem alma. É neste sentido que apresento o seguinte poema:
Noites a fio, Lilia
atenta aos desafios
desmancha travesseiros
e faz paviosDe fio a pavio
dá conta das crias
e tece esperanças no escuro
toda coragem-LiliaGraça Graúna (indígena potiguara/RN)
Recife, 17 de março de 2022
Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília/DF, o Acampamento Terra Livre (ATL) reuniu seis mil indígenas de várias regiões do Brasil. Desde o dia 22 de agosto de 2021, milhares de indígenas permanecem na luta pelos seus direitos.
Fonte: Correio Brasiliense
É intensa a vigília pela sobrevivência, pela Demarcação da Terra e contra o marco temporal em que os povos originários só podem reivindicar as terras estabelecidas antes da promulgação constitucional de 5 de outubro de 1988. Esse “marco temporal” só incentiva as atividades do garimpo (Cf, Correio Brasiliense, 24/08/21).
Crédito: CNN
Lideranças do acampamento “Luta pela vida” entregaram uma carta com mais de 160 mil assinaturas contra o marco temporal. A carta foi assinada por juristas, artísticas, acadêmicos e diversas personalidades que pediram proteção para os povos indígenas; esperando “que a Corte faça prevalecer o Estado de Direito” (Cf. Correio Brasiliense).
Crédito: CNN
Em nota a imprensa, a Apib (Articulação dos povos indígenas do Brasil) denuncia “o agravamento das violências contra os povos originários dentro e fora dos territórios tradicionais”. Na programação do movimento indígena estão previstas plenárias, agendas políticas em órgãos do Governo Federal e embaixadas, marchas e manifestações públicas (Cf. Correio Brasiliense).
No Jornal o Estadão, em 24/08/21, o advogado indígena Eloy Terena, coordenador jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), adverte sobre os efeitos que teria para os povos indígenas uma decisão favorável ao marco temporal: “O efeito vai ser nefasto, porque vai inviabilizar a demarcação das terras que ainda não estão regularizadas e vai abrir possibilidade jurídica para questionar terras já consolidadas”, afirma. “O efeito não é só na demarcação porque a interpretação que se quer dar ao marco temporal é de abrir esses territórios à exploração mineral e também ao agronegócio nas terras indígenas.” Conferir as informações em: (https://www.bol.uol.com.br/noticias/2021/08/24/marco-temporal-poe-em-xeque-demarcacao-de-mais-de-300-terras-indigenas.htm?cmpid=copiaecola)
Obs: As imagens foram extraídas do Google, com créditos para: CNN, Isto é, C. Brasiliense, Cimi, Estadão.