Manifesto I

Imagem: Socioambiental

…fragmento que sou
da fúria no choque cultural,
aqui, manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o que ainda resta
do cheiro da mata
da água
do fogo
da terra e do ar
Torno a dizer:
manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o cheiro da minha aldeia
onde ainda cunhantã
aprendi a ler a terra
sangrando por dentro

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 20 de fevereiro de 2010
***
Nota: publicado no Overmundo.

Quase um alento


Imagem: João Werner

Sonho, acordo e enloucresço.
Penso: a vida seria desolada
se não houvesse canções de amor.

Não digo, só penso:
você é quase o meu alento
ou quase tudo que eu quero.
Vamos deixar o nosso nome na porta
viver o momento
e seguir a canção.

***

Graça Graúna (indígena potiguaa/RN), 21.jan.2010
***
Nota: ler ao som de “Mora na filosofia“, música interpretada por Caetano.

Miragens

Imagem: Pierre Bonnard

À meia luz
escudados nos sonhos
despistaram o medo de amar
e só diante do espelho admitiram
que a nudez é um perigo
capaz de intimidar o Amor
…depois do amor a espera
sem pressa, sem dor
depois do amor
o desejo natural
de repousar entre lençóis
e continuar a loucura
que não se vê em jornais.
Escudados nos sonhos
beberam a angústia do ser
na boca molhada de suor e sexo
seguindo o infinito
neste sopro de adeus…

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
…dos arrecifes, jan/2010

Nota: poema publicado no Overmundo