Poema das horas

Imagem Google. Clock Explosion, de Salvador Dali

…trancou a porta da casa e supôs
que desse jeito estaria bem melhor.
Também jurou de pés juntos
que jamais dividiria
o sal e o pão.

Trancou a sete chaves o coração
desconstruiu cada minuto de espera
mas de nada adiantou:
a dor foi mais forte
a solidão foi mais longe, estrondou…

e o eco se fez ave de muitos voos.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 25.fev.2009

Uma explicação necessária: a minha amiga CD (Compulsão Diária) – que eu chamo de Criatura Divina – compôs um Meme – um dos mais inquietantes que já li. Para atender o seu chamado, revisitei um poema (Eco – ave de tantos vôos) do meu amigo Lucio Ferreira – poeta pernambucano. Do livro dele (Estas coisas cá de dentro, Recife, Edições Bagaço, 2004, p.74-75) extrai o seguintes versos.
…“Tudo ficou contado.
O eco tem muitos cantos
é ave de muitos vôos”. (Lúcio Ferreira).

Verve da re-leitura em Neres

Capa: Agnes Pires
Recebi do poeta JG Neres (Grupo Palavreiros) uma homenagem. Trata-se da re-leitura que ele fez do meu livro Canto Mestizo (Blocos Editora). Fazer re-leitura não é uma tarefa fácil; pois é preciso ter verve para esse tipo de diálogo e o Neres fez com mestria. Obrigada, poetamigo. Bjos, Graça Graúna.
Canto Mestizo
                                   
                             à Graça Graúna
Canto de cigarra
na árvore do mundo

tear do tempo

oculta Lorca
e as doze pedras
labirintos
II
minha aldeia
escrita ferida
voz desnuda
sem ninho
o homem se fez:
criatura avessa ao tempo
flagelo-fome-novela
no pó, poesia

sagrado vôo dos peixes
nossa imagem de mistérios
semente
parto da terra

deserto de cidades

o destino
pavimenta
aldeia-meninas-cores-filhos

choro
versos
de restos mortais
sudário de pôr de sol

canto mestizo
de anjos e pássaros
deuses extintos