Tear de sonhos

Flamboyant, Galeria de Sucra88

Tantas histórias…
cânticos, versos
da mãe preta
do caboclo velho.

Ao pé do flamboyant
e da jurema
um tear de lembranças
que entrou por uma porta
e saiu por outra.

Contei a minha história.
Quem quiser que conte outra.

Graça Grauna. Tear da palavra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2007, p.10.

Nota: poema publicado no Overmundo.

Memórias de um povoado

Povoado de São José do Campestre (RN). Tela de Marconi Melo.
Foto: Agnes Pires
A Casa da Cultura Popular de São José de Campestre (RN), conhecida também como Palácio da Borborema Potiguar, ainda está sob o clima de festa. Desde o dia 8 de maio de 2009, data em que se homenageia o artista plástico, a pacata cidade de Campestre tem mais um motivo para mostrar a todos a riqueza da sua cultura. Agora, com uma pinacoteca, o potiguar de Campestre tem tudo para admirar a história do seu povo. Na festividade se fez presente o balé popular da Casa da Cultura que animou a I Vernisagem de inauguração da pinacoteca que recebeu o apoio de Maria Noemia da Costa, carinhosamente chamada de Lilia, artista plástica e campestrense potigara, radicada em Recife/PE. Na ocasião, Lilia foi homenageada pelos conterrâneos e doou a tela “Memórias de um povoado”, pintada pelo artista pernambucano Marconi Melo. A tela resgata a religiosidade do lugar com imagem da primeira capela construída de frente para o rio Jacu, por Pedro Inácio, no período de 1895 a 1897. A tela mostra a arquitetura popular com suas casas bucólicas e o cotidiano do povo campestrense com os caixeiros viajantes, os descendentes indígenas potiguara e os tropeiros da época.
Atualmente, a cidade de Campestre conta com 11 mil e 744 habitantes. A administração da Casa de Cultura Popular está sob a responsabilidade de Carlos Alexandre Domingos Feliciano que vem se dedicando a mostrar a diversidade cultural da região.
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 10 de maio de 2009
Nota: nasci neste povoado. Sou filha de Lilia.
Obs: texto publicado no Overmundo.

Kuá, a explosão feminina!

…a mesma história, sim,
de sangrar todo mês
de chegar na farmácia
e pedir um tampão pra calar o mugido.
Se isto te aborrece,
paciência!
Quem disse que se mede uma dor,
se é maior ou pequena?Trago sede de viver
apesar da exclusão
e de sangrar por dentro.
Se isto te enfurece,
paciência!
Custa entender
que Deus também veste saia
e conversa comigo?

Graça Graúna, (indígena potiguara/RN), 3 de maio de 2009.

Nota: era aproximadamente 15 horas, quando acabei de parir mais um poema. Ademario Ribeiro, mesmo longe, ajudou na hora da “pensação” (como ele diz) na feitura do nome do rebento. Ele sugeriu kuá (em tupi, significa: fenda, luz, mundo, buraco, vida no universo…); tudo a ver com a fertilidade vermelha que sai do buraco feminino que enche de vida e dá “luz” para o mundo. A imagem de Frida foi uma sugestação de Agnes, minha filha. E o nome do poema ficou assim: Kuá, a explosão feminina!

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Nota: poema publicado no Overmundo.