Projeto Kywagâ: moda indígena Bakairi

O presente relato foi escrito na primeira quinzena de Abril indígena 2021, com base nos depoimentos de duas mulheres indígenas do povo Kurâ Bakairi (MT): Darlene Yaminalo Taukane (Mestre, Pedagoga) e Isabel Taukane (Publicitária).

Vilinta Kuiomalo /Acervo Proj.Kywagâ

Carlos Taukane /Acervo Proj.Kywagâ

Por telefone e por e-mail, conversei com Darlene Yaminalo Taukane e Isabel Taukane. Percebi nelas a satisfação ao comentarem que o projeto Kywagâ, de moda indígena Bakairi, foi contemplado pela Lei Aldir Blanc. Elas também falaram da profunda tristeza diante do luto que se espalhou na aldeia com a Covid-19; descreveram a respeito da experiência das mulheres indígenas na Oficina de Estamparia e de como as cursistas reagiram ao saber da perspectiva de contarem, também, com uma renda familiar (sobretudo num período em que o mundo vive a tragédia de uma Pandemia). Isto também quer dizer que as mulheres do povo Kurâ Bakairi/MT estão recuperando, aos poucos, a força de viver. Não é que elas perderam a fé na vida, mas passaram por um grande e tenebroso abalo diante da perda de entes queridos vitimados pela Covid-19 e do avançado índice de mortalidade que se espalha pelo planeta, com a Pandemia. Por outro lado, algumas noticias positivas foram chegando e acompanhadas de fotos em que um grupo de mulheres guerreiras busca no grafismo ancestral um meio de recuperar o fôlego, de tocar a vida e garantir a renda familiar por meio da cultura e da história do seu povo. 

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Acervo do Proj. Kywagâ

Para saber mais do projeto Kywagâ, o depoimento que segue nos convida a refletir o lugar da cultura indígena durante a pandemia; o uso do grafismo ancestral na oficina de estamparia e a renda familiar. Nesta perspectiva, a publicitária Isabel Taukane comenta:

Isabel Taukane /Acervo Proj. Kywagâ

*O projeto de moda Bakairi.

_ Com a Lei Aldir Blanc, entramos na categoria de moda. Nós temos uma cultura tradicional que é muito genuína. A gente contribui muito para a cultura indígena brasileira; temos também a cultura indígena contemporânea no contato com o homem branco, não indígena e com as novas linguagens culturais e artísticas nos suportes ocidentais.

[…]

Essa Lei que veio em meio à tristeza é também uma luz de ressurgimento, pois dá oportunidade para as pessoas. Durante a Oficina com a Rita Ximenes, a gente pode ter depoimentos muito positivos, porque no nosso território tivemos muitas perdas, muitas mortes em decorrência da Covid. As pessoas estão em luto, estão tristes; as mulheres que perderam os pais, alguém da família. Para as mulheres que estavam participando da Oficina, esse nosso projeto trouxe uma luz, uma esperança de se curarem; elas diziam que quando participavam da oficina não pensavam em tragédia. O foco era desenvolver coisas bonitas. As mulheres falavam: “a nossa cultura é tão bonita! Eu não enxergava a nossa cultura como uma coisa bonita. A gente tem muita riqueza no nosso território”. Essa Lei veio trazer isto: autoestima, orgulho da nossa cultura e oportunidade de produzir coisas maravilhosas; saber transformar as coisas em algo tão bonito. Isso que as mulheres sentiram na oficina tem algo de ressurgimento, de renovação;  de se colocar no mundo na condição de povo Bakairi. A gente tem muita coisa bonita para apresentar. Talvez seja isso a importância da Lei Aldir Blanc, porque  não ficou engessada [no sentido] de que o índio tem que fazer; porque as vezes os editais da Funai são engessados ... Talvez essa Lei esteja engessada no tempo de execução, no orçamento; mas tem possibilidades de colocar no papel e fazer, no momento do caos, algo renovador.

*A repercussão da oficina

_ [...] despertou muito interesse o release que divulgamos na mídia, falando sobre o que é o projeto; o interesse de muitas pessoas do nosso próprio território [...] e de muitas outras etnias de Mato Grosso, querendo participar; muitas etnias entraram em contato comigo, os Nambikwara, por exemplo, tem um projeto (de corte e costura) mais ou menos parecido com o nosso e que é apoiado pela Loreal Paris. Nós já estávamos limitando o número de vinte pessoas para participar, devido ao Corona Vírus. Os Kaiapó, também nos procurou. Nós provocamos muito interesse nas pessoas em participar, mas não estamos preparados para alojar tantas pessoas. Então, o projetou ficou entre nós, em dez aldeias do nosso território; foi limitado para as lideranças que cada aldeia escolhesse quem queria participar. Pensamos em agente multiplicador, para que as mulheres da oficina possam multiplicar isso. A procura foi muito grande, mas é limitado o recurso econômico do projeto. Ficou até difícil o deslocamento das pessoas dentro do próprio território. Nós criamos um grupo com as pessoas que participaram da primeira oficina, pois a ideia é de que as participantes desenvolvam o projeto em suas casas; já recebemos fotos de participantes que estão trabalhando com tinta natural e fazendo os próprios carimbos. É gratificante ver esse desenvolvimento. As mulheres não querem ficar paradas. Estamos pensando em fazer mais uma oficina de moda; estamos nessa corrente da moda indígena brasileira. No Edital (AldirBlanc), nós somos os únicos que estamos trabalhando nisso (com moda).

*A comercialização da estamparia Kurâ Bakairi

_ Pensamos em vender por via online, estamos desenvolvendo o site <iakadu.com>. Sobre o Projeto da moda, minha tia [Darlene] é a responsável. Estamos fazendo um treinamento de empreendedorismo. Dentro desse site vai ter lojas virtuais, e dele vai participar não só o meu povo; a Associação Nambikwara vai estar presente e outros povos que têm interesse na venda online vão participar.

Oficina de estamparia na aldeia

Darlene Taukane e cursistas na Oficina de estamparia / Acervo Proj. Kywagâ

A moda indígena foi o ponto alto da oficina de estamparia realizada entre 8 e 13 de março de 2021. A realização dessa oficina só foi possível por meio do Projeto Kywagâ que – entre os objetivos – procurou desenvolver linhas de produção da moda indígena Kurâ Bakairi, como afirma   Darlene Taukane: responsável pelo projeto.

A assessora de comunicação do Projeto Kywagâ ressalta que a concepção inicial do Projeto Kywagâ contou com Savana Leão e cuja atuação no campo da moda foi decisiva também para a aprovação do Projeto e contemplação pela Lei Aldir Blanc. Porém, devido a problemas de saúde com uma pessoa da família vitimada pela Covid-19, a estilista Savana precisou afastar-se do Projeto Kywagâ. Apesar da Pandemia, as lideranças indígenas optaram pela continuidade do Projeto Kywagâ com a participação da arte-educadora e artista plástica Rita Ximenes, que ministrou a oficina na aldeia; seguindo todas as recomendações de combate à Covid-19.

Na oficina, as cursistas indígenas aprenderam a desenvolver o batik (arte originária da Indonésia); nessa arte se trabalha o desenho com cera quente, sobre as mais diversas texturas e envolve inúmeras alternativas de aplicação da técnica juntamente com a estamparia.

Acervo do Projeto Kywagâ

No release à imprensa consta entre os objetivos do Projeto de moda indígena Bakairi: desenvolver peças do vestuário com características própria da etnia, contribuindo dessa forma com a moda indígena mato-grossense. Espera-se também com comercialização da produção artística contribuir para a geração de renda de mulheres indígenas. A experiência com a Oficina do Projeto Kywagâ “significa complementação de renda familiar e mesmo autonomia financeira ou podemos dizer, que é a inserção econômica e social de pessoas excluídas do mercado formal de trabalho”, diz Isabel Taukane. Ela também destaca o fato de que o processo de tingimento e estamparia apresenta um leque de opções que foram desenvolvidas na aldeia;  considerando que as participantes indígenas  ao extrair das plantas  a tinta para a estamparia respeitam o tempo da natureza em relação a coleta de materiais para a extração de tingimento. Na oficina, as cursistas receberam noções sobre distinguir os tecidos que melhor fixar as cores e todo o processo que envolve o desenvolvimento e aplicação da estamparia.

Com a realização da oficina espera-se que o grupo de mulheres indígenas Kurâ-Bakairi possam desenvolver o gosto pela arte têxtil e produzir peças singulares com características próprias de povo originário.

Ameríndia, abril indígena 2021

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Cartas de Ameríndia, “Cheiros do vento Sul”…

SANTANA, Paula. Os cheiros do vento sul. Serra Talhada/PE: Ed. da Autora, 2020.

Ficha Técnica

Ameríndia, novembro, dia 5 de 2019

Paula Santana: irmã de luta, poet’amiga.

Ao folhear as páginas do seu diário de campo, veio a ideia de escrever esta Carta para espantar as mazelas que se agregam não só ao Dia de Finados: dia de não esquecer a invasão de posseiros e a geografia violentada; dia também de lembrar que onde tem angico tem nascente e vem daí a ciência indígena pra macerar fumo brabo. Que honra, trilhar pelo caminho ancestral!

O cotidiano da história está prenhe de desafios. Pelo dito popular, “o mar não está p’ra peixe”. Apesar do mar de ódio/óleo, os cheiros do Vento Sul permitem o direito de sonhar, de adoçar a vida, de pensar ou dizer em voz alta a poesia tecida nas coisas bonitas que você viu no desenho das pedras, no sono dos pássaros, no voo dos peixes, na sombra da embaúba e no sagrado dos rios.

Querida Paula, o seu diário é de um aprendizado tão instigante que deixa na gente uma vontade enorme de abraçar, outra vez, o Velho Chico e o Rio Negro: pedagogia viva e cura dos povos ribeirinhos. Penso também nos Potiguara, nos Pankararu, nos encantados: amados praiás; e no abraço carinhoso que se recebe quando a gente chega ou se despede da aldeia. É sinestésica a leitura que vem do seu diário e não poderia ser diferente, pois o cheiro do banho de ervas (calêndula, lavanda, alecrim e canela) e do campiô acolhem o ser poético, o xamãnico e a encantadora de história que habitam na sua escritura híbrida.

Como esta Carta não termina aqui, dou-me o direito de um intervalo pra sustentar o fôlego e subir a serra; fôlego pra escutar o vento e fazer um giro completo em torno do Sol, como quer a poesia.

Saudações indígenas,

Graça Graúna

(Filha de Tupã, do povo Potiguara/RN)

Trilhas de mulheres guerreiras (I)

8 de março, dia Internacional dedicado as Mulheres, é lembrado também pelas mulheres indígenas. Entre os povos originários, o dia internacional da mulher indígena é celebrado em 5 de setembro; em memória de Bartolina Sisa, mulher quéchua que foi assassinada na rebelião de Túpaj Katari, em 1782, no Alto Perú. Essas datas, ao meu ver, remetem a um conjunto de manifestações em prol da resistência. Isto quer dizer que é contínua a nossa luta contra a desigualdade, contra o machismo e todas as formas de violência.

O nosso Blog Tecido de Vozes saúda todas as mulheres do mundo. Nesta perspectiva, criamos a série “Trilhas de mulheres guerreiras” com o objetivo de apresentar um pouco do dia-a-dia das mulheres indígenas em suas comunidades ou na cidade grande. Em tempo, registro _ desde já _ o meu agradecimento a todas e todos que compartilham os saberes ancestrais e que arrecadam um pouco do seu tempo, do seu dia-a-dia para fortalecer o espírito coletivo.

Com relação às postagens que seguem, as mesmas foram enviadas para esta série (Trilhas de mulheres…) em diferentes datas (de janeiro a março de 2021), razão pela qual só nos foi possível apresentar, agora, este painel de mulheres guerreiras de diferentes etnias e que seguem na luta com a força dos Ancestrais.

Que Nhanderu/Tupã nos acolha,

Graça Graúna (Indígena Potiguara/RN)

POVO ATIKUM

Inicialmente, apresentamos o vídeo das Mulheres Guerreiras do povo Atikum: mulheres indígenas que vivem no município de Salgueiro, em Pernambucano.

POVO PANKARARU

Maria das Dores de Oliveira (povo Pankararu/PE). Linguísta, atua na área de educação escolar para os povos indígenas; junto à ONG Thydêwá, Maria co-dirigiu o documentário: Mensagem da Terra. Recentemente (11/03/2021), Maria Pankararu participou do debate “Preservação de saberes no cinema das mulheres indígenas“; também participaram do debate: Joana Brandão (mediadora/poeta) Maria Corrêa (Cineasta/Video nas aldeias), Barbara Matias (kariri) e Tipuici Manoki.

No programa de Extensão Cultural da Universidade de Pernambuco (UPE), Maria Pankararu participou (na condição de convidada pela Coordenação do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais da UPE) do Podcast Saberes Indígenas (n. 14, vol. 1.3 ), “Educação e literatura em movimento”; por meio do qual ela traz um importante depoimento sobre a história e a cultura dos povos originários, especificamente do seu povo Pankararu/PE.

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Crédito da foto: Thydêwá

Responsável pela Associação das Mulheres Guerreiras do Povo Pankararu, a indígena Barbara Pankararu (PE) cmpartilhará, assim que possivel, em depoimento um vídeo.

POVOS INDÍGENAS DO RIO GRANDE DO NORTE

No Rio Grande do Norte existem 15 comunidades indígenas, onde em cada comunidade há pelo menos uma mulher que exerce o papel de liderança. No painel seguinte, a homenagem da Articulação dos Povos Indigenas do Rio Grande do Norte (APIRN) às mulheres guerreiras dos povos originários.

Painel fotográfico enviado por Kaline Potiguara, da Apirn.

… e mais e mais guerreiras nas comunidades indígenas do Rio Grande do Norte: Maeryane (Aldeia Catu); Mãe Maria (Natal); Valda (Aldeia Catu); Ana Paula Campelo (Natsinga), da comunidade indígena Tapará; Karollen Potiguara (Apirn); Mestra Benedita e Wilkflane (indígenas da comunidade Tapará), Kaline (Apirn) e Andriele (Natal) e as mulheres indígenas da comunidade município Rio dos Índios, no municío de Ceará Mirim. Como afirmam as lideranças indígenas do local, essa comunidade “pede socorro, pois grande parte dos indígenas enfrentam vulnerabilidade social e estão em dificuldade para obter alimento”. Para ajudar a comunidade Rio dos Índios, divulguem a Campanha que segue: