Escritos

Imagem Google – coleção Nicoletta
…e se me ponho a juntar
escritos de gozos
raízes de abraçosbem sei: não é apenas saudade
ou mesmo lembranças
a dor que me cerca

é algo mais forte
que o tempo da distância
não alivia, nem basta.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Graça Graúna. Tessituras da terra. 2. ed. Belo Horizonte: M.E. Alternativas, 2001, p. 35.

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Para enfeitar o Natal

Desenho de José Pádua. Imagem extraída do Google. 

I
Poemas de Natal
deviam se de alegria,
mas por força do ofício
ponteio em litania

II
Pegue o viaduto
vá na contramão
em cada esquina um presépio
em construção

III
Nasceu um menino
sem “Alegria dos homens”
sem espera, sem abrigo
sem lampejos e encantos

IV
Nasceu um menino!
sequer tive tempo
de escovar os cabelos
de chegar ao cinema
de checar os e-mails
de acompanhar os eventos
de acender as velas
e agradecer os presentes
dos amigos secretos

V
Yes
natal
que é natal
tem que ter estrela
bem no topo da árvore
de preferência banhada de
purpurina. Enfeites, efeitos,
grifes, beijinhos, velas, guardanapos,
vídeos, cds, framboesas, cartões de crédito,
postais e poemas que não falem do absurdo presépio
sob o viaduto
em construção

VI
Yes, Sir.
Meu poema de Natal
foi levado pelo vento
para fazer companhia
às almas no esquecimento

VII
Pra longe foi meu poema
lavrado pelo sereno
da noite para espantar
as barricadas da fome
nos quatro cantos do vento

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.50-53

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Alquimia


O beijo, de Rodin

As primeiras impressões nuas aquecem
a roupa do teu corpo
em minha pele

no campo da esperança
o vento sopra
negros mantras de amor

dentro de mim um rio em transe
na tessitura dos sonhos
(só alquimia) meu gozo é teu

Graça Grauna (indígena potiguara/RN)

Nordeste do Brasil, 13.dez.2008
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