Na altura dos sonhos

…um homem, uma mulher.
Imagem extraída do Google

direi que é domingo
se a tua alma vem
desnuda, cantante
apascentar meus temores

agora e na hora

direi que é domingo
que haverá manhã
na altura dos sonhos
na hora última dos namorados

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas – Coleção Milênio, 2001, p. 34.

No site Overmundo, este poema recebeu 183 votos

Performance

 

Clepsidra. Imagem Google

O dia convida à leitura das águas
da chuva e do mar
da saudade doida e doída
dos meus dias paulistanos
Permito-me os excessos de amar
de abraçar exageradamente o outro
de olhar nos olhos
de mostrar-me nua-quase.
Leio a vida
que passa entre os trilhos
e as marcas de bala
nas janelas dos ônibus.
O dia convida a viver….sobreviver…
a não esquecer que a saída
um tango pode ser
como quer Bandeira
O dia convida a escreviver asneiras
assim, pela vida
e abraçar o outro
de-va-ga-ro-sa-men-te
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 27.ago.2008
Nota: poema publicado no site Overmundo

Crônica para um narrador

 

Imagem Google
          Foi num sábado à noite. No local do encontro, mesclas do infinito; coisas que acontecem, quando as lembranças se transformam em festa com as boas palavras de Antonio Viana: um escritor.
A sala estava cheia. Adultos e crianças em meio ao encanto. Ao meu lado, um casal idoso deu-me a impressão de que não perdera o hábito de ouvir “Músicas e lágrimas”, de Glen Miller. Ele, muito discreto, guarda uma semelhança com aqueles homens desenhados nos reclames coloridos dos cigarros americanos de 1932. Ela, provavelmente da mesma época e exuberante no vestido de seda azul claro, me deixou também a impressão de que acabara de sair de um quadro em moldura oval, desses que ocupam um lugar muito especial em uma sala grande. Não sei a cor dos seus olhos; se azuis, ou castanhos; traços do rosto que eu quase desconheço. O tom da voz, eu não sei. Na verdade, procurei resguardar minha curiosidade sobre o casal para não quebrar o encanto. Coisas de leitor, de leitora: primeiro, o livro. Depois, o filme.
História & histórias. Ficção e realidade. Ah, os livros! Na passagem para o poético, um festim de personagens: Pessoa e pessoas, Alberto, Francelina, Luzilá, Rilke, Abigail, Victor Hugo, Neruda, Lorca, Whitman, quase todos os nomes no espaço sedutor – o texto. E o leitor como se sentem? Certamente, desejoso também de exercitar no seu ritmo algumas lembranças. Engraçado, eu nem me lembrava mais da experiência de sentir, à maneira de Viana e Drummond, essa prévia saudade de ler um livro. Não foi à toa que eu me guardei na minha ânsia, diante da tentação de folhear uma das gêneses da obra. Bom mesmo é esperar o momento certo para abraçar o livro. E o autor? Sim, é permitido abraça-lo também; porque as boas lembranças aquecem. E o narrador, onde está? Em meio à ânsia coletiva, como geralmente ocorre em lançamento de livro; está na “fronteira entre o histórico, a ficção e o memorialismo”, como dizem os teóricos.
Fez-se um rápido silêncio. Eis o Autor! – disse um amigo. Ao meu lado, um casal idoso contemplava o homem quase-menino que acabara de chegar. Nesse momento, duas sábias mulheres se aproximaram e contaram histórias sobre os muitos caminhos desse homem: cidadão do mundo, filho da ausência, irmão da confiança, habitante também de Pasárgada.
Bastou essa palavra: Pasárgada! E abriu-se uma porta mágica. Através dela, o Autor foi chegando manso, tranqüilo, cobrindo a todos com um raio de luz. Sobre a mesa, lembranças em papel e tinta evocam o ad-infinito.

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Cerrado/DF, 3 de janeiro de 2009.
Nota: no site Overmundo, este poema recebeu 214 votos.

Graça Graúna. Crônica para um narrador. In: BARRETO, R. Paes (Org.). Opúsculo de múltiplas vozes sobre o Festim das lembranças, de Antonio Viana. Recife: Cia. Pacífica, 1999, p. 37-38.