Cora Coralina: sempre viva

Sempre viva

Lá, no esconderijo
vivia uma certa menina
meiga
doce
Sempre-viva-Coralina
Na casa velha da ponte
igual à cabocla velha
à margem do Rio Vermelho
a menina de trança
meiga e mansa
igual à Nega Fulô
carente de alforria
Meiga, mansa
Cora Coralina
carregou dentro de si
amarga e doce poesia
tecida no esconderijo
de todas as vidas
nos becos
Sempre-viva

Graça Graúna. Canto mestizo. Maricá/RJ: Editora Blocos, 1999.

Programa Voz Indígena: incêndio, manifesto…

Imagem: Elaine Tavares, https://iberoamericasocial.com
       O programa de rádio “Voz indígena“, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) –  localizada no interior de São Paulo – é um dos poucos em nosso país que acolhe a literatura indígena em prosa e verso, entre outras manifestações artísticas dos diferentes povos indígenas do mundo. 
   No programa que foi transmitido no dia 1 de setembro de 2019, os apresentadores João Paulo Ribeiro e Ariabo Kezo presentearam os ouvintes com o discurso proferido pelo filósofo Ailton Krenak, em setembro de 1987, na Assembleia Nacional Constituinte. Nunca é demais refletir sobre esse momento tão relevante da História Indígena, quando um jovem líder do povo Krenak, em sinal de protesto diante do risco de não ser aprovada a emenda constitucional sobre os direitos indígenas, pintou o rosto com a tinta preta de jenipapo; enquanto clamava na Câmara dos Deputados, pelos direitos dos povos indígenas da floresta e da cidade.
      Os apresentadores do programa destacaram os nomes de Álvaro Tukano, Daniel Kabixi, Darlene Taukane, Davi Kopenawa, Eliane Potiguara, Estevão Taukane, Marcos Terena, Mario Juruna, Marçal Tupã-y, Raoni Kayapó e Xicão Xukuru, entre outras lideranças que participaram da luta, em defesa da Constituição de 1988.
       Confesso que me tocou profundamente outro momento do referido programa, quando os parentes João Paulo e Ariabo Keso teceram comentários acerca do poema Manifesto;  um poema com a base de rap e por meio do qual  denuncio os horrores sofridos pela nossa Mãe Terra. Na sequência, os apresentadores também fizeram apreciações a respeito do poema “Resolvi ser branca”, da Professora Fernanda Vieira.
        Em tempo, compartilho o Voz indígena #83, que fala do “incêndio” na Amazônia e de como buscar um bem viver com a mensagem em defesa da nossa casa: o planeta terra.
GRAÇA GRAÚNA (indígena potiguara/RN)

.. um olhar sobre a Amazônia em chamas

… nem sempre consigo dizer o que sinto, quando me vejo diante de uma situação-limite. Continuo me perguntado sobre o que está acontecendo em nosso país. Ando pelas ruas e vejo grupos de pessoas trajando preto e percebo uma multidão de rostos tristes, em pânico.  Um luto se alastra semelhante as chamas que devoram a nossa Amazônia. O que estou sentindo neste momento, agora, é uma sensação de impotência e me pergunto: o que devemos fazer para não perder o foco na esperança de que continuaremos fortes e que seremos capazes de resistir a tantos horrores?  Enquanto caminho, vem o desejo de alargar os passos pra chegar em casa e acalentar meus filhos, os netos, abraçar amigos e vizinhos. Bom seria que as labaredas da ganância, do egoísmo, da inveja e da vaidade não interrompessem os nossos sonhos! Fico torcendo para não queimarem mais a floresta e nem tingirem de vermelho o céu da Amazônia. Chega! Apesar dos tempos sombrios, entro em casa e as mensagens me chamam: algumas trazem esperança, outras falam da raiva, do medo de viver um tempo tão difícil.  As mensagens chegam em forma de poema e a poesia, apesar dos horrores desses dias, revela que devemos manter o foco na sede de viver; que precisamos continuar atentos e fortes, como quer a canção. E é nesse ritmo, que distendo minhas asas, meu abraço de mulher, mãe, avó indígena a todos que acreditam na força da “Mata” como sugere o olhar do poet’amigo Devair. Na sequência: uma foto e o poema “Mata”, de Devair Fiorotti.
Com abraçares,
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)
Foto: df

Mata

largue tudo
esqueça tudo
mate tudo
assole
dilapide
abata
acabe
aflija
alhane
aniquile
anule
omacaconamataamalocanamataaorquídeanamata
asumaúmanamataocaminharnamataococar
namataocaiçaranamataoribeirinhonamata
mata mata mata mata mata
arrase
arruíne
aterre
bombardeie
atire
ceife
cerceie
consuma
deprede
oolhardamataosilênciodamataocheirodamata
overdedamataabelezadamataaalegriaevisodamata
ocantodamataorespirardamataogostodamata
mata mata mata mata mata
queime tudo
lasquetudo
foda-setudo
metáforas, vida pra quê?