Travessias

Árvore da vida, de Klimt.
Como quer Tarumã

a árvore do encanto

andei céus e terra
dei voltas e voltas
passei horas e horas
te procurando

pelos arquivos do mundo
te procurando
quando dei por mim
nem foi preciso tanto

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Graça Graúna, (indígena potiguara/RN), 12.junho.2009
Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas/Coleção Milênio, 2001, p. 25.

NOTA: poema publicado no Overmundo.
DIZ UMA LENDA indígena, no Amapá, que uma pessoa ao deparar-se com um amor impossível, deve fazer promessa ao “Tarumã” (que significa, em tupi, tronco que se move), deixando sobre ele algum presente ou oferenda. Se o tronco navegar rio acima e retornar vazio, o pedido será realizado.

Voos urbanos

Ninho com três filhotes foi encontrado no shopping. Foto: Endinara Siqueira
para meu filho Fabiano, minha filha Agnes
e minha filha Ana Maria Inês,
que me chama de passarinho perdido.

Um pardalzinho nasceu
entre as migalhas do shopping,
já viciado na cidade.

Em passos miúdos
circula a beira do lago
das Super Quadras
e num voo frágil
alcança o pier 21
as vigas da colônia
e mira o asfalto.

Um pardalzinho stressado
na praça da alimentação
cata sob as mesas
as últimas forças
que alimentam seu voo no Planalto.

…e das migalhas do shopping
um pardal faz seu ninho
talvez o último entre as cinzas
no asfalto

Graça Graúna, Nordeste do Brasil, 9 de junho de 2009

NOTA – 1: a primeira versão deste poema foi escrita em Brasília/DF, no Pier 21, em 5 de janeiro de 2004.

NOTA – 2: poema publicado no Overmundo.

DEU NO JORNAL: 21 de novembro de 2008. Um ninho com três filhotes de pardal foi encontrado próximo à portaria 2 do Shopping Iguatemi, em Caxias do Sul. […] Pardais vivem de 15 a 20 anos, medem cerca de 15cm e se alimentam de sementes, além de alguns insetos, frutas e migalhas de pão. Normalmente fazem seus ninhos embaixo de telhas, em buracos, cavidades e é comum ocuparem ninhos de outras aves.

…pobre Planeta

Imagem: Google

***para Juscelino Mendes e Diacui,
meus irmãos da etnia Pataxó/BA ***
I
Tive sonhos imundos
sonhos estranhos
pesadelos…
Troncos seculares de árvores mortas
àguas turvas, animais em chama
tamanduás pisoteados pelo progresso
nossos curumins órfãos
nossos velhos desesperados.
II
Vi a morte de perto
e a sua capa pesou em meus ombros.
Ouvi discursos bonitos
quais túmulos caiados
e quando os meus olhos se fecharam
veio um pedaço de rio à beira da morte
e desabou sobre mim
os seus descaminhos.
III
Vi os meus parentes desnutridos
vi tanta miséria
que o meu pranto se transformou
num rio triste, sem fim.
IV
E apesar da escuridão
sonhei com o amanhecer
desejei tanto viver
que ouvi um sabiá cantar na mata
e ao seu lado, uma voz guerreira:
V
_ Acordai, acordai,
que é chegada a hora
de repensar nossa atitude
em relação ao Planeta!
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 7 de junho de 2009
NOTA: poema publicado no Overmundo.