“Para um único coração”

Tradução livre: Graça Graúna

Faço uma tradução livre da notícia que a Servind publicou em 29 de outubro de 2020, a respeito de uma canção composta por três crianças indígenas da etnia Kukama; localizada em Loreto (Amazônia peruana). A canção reflete a experiência das crianças indígenas sobre o “corona vírus”. Segue , então, a notícia e o vídeo que foi produzido pela Rádio Ucamara.

A canção intitulada “Para um único coração”, ou “Iatsaku”,  reflete as experiências de três crianças indígenas Kukama, durante a quarentena, diante da medida imposta pelo Estado para controlar a disseminação do corona vírus. O vídeo foi produzido pela Rádio Ucamara.

Os autores da música contam que apesar da pouca idade, enfrentaram esta tragédia – a pandemia – com paciência e muita força. “Somos crianças com um coração muito forte. Criamos uma música de coragem para unir as pessoas e construir tempos melhores”, dizem os pequenos compositores da música.

As crianças Kukama são consideradas pequenos heróis, porque enfrentaram não apenas o corona vírus e o isolamento social; enfrentaram também a fome e o abandono do Estado. Apesar disso, elas não perderam a esperança de construir uma sociedade onde não haja mais morte e violência.

Vejam a narrativa de Juan Carlos Ruiz Molleda (no Facebook) e suas impressões sobre o vídeo das crianças Kukama:.

Os pequenos heróis Kukamas

(Por Juan Carlos Ruiz Molleda)

Martín (9 anos)  relata que durante a quarenta descobriu sua paixão pelo desenho e que também aprendeu a valorizar o silêncio, porque ouvia o canto dos pássaros e sapos.  Por sua vez, Melissa (11 anos) confessa que a quarentena a obrigou a se distanciar dos primos e amigos, o que lhe causou muita tristeza; mas entendeu que era preciso cuidar da família. Ela disse: “Agora você sabe que a distância não separa os corações”. María Celeste (8 anos) diz que seu avô lhe ensinou tudo sobre a força das plantas. Ele comenta que as pessoas de sua comunidade não morreram, porque fizeram uso dos preparos vegetais. As crianças Kukama enfrentaram essa nova experiência com sua sensibilidade e perspectiva de ver o mundo. Embora estejam um pouco assustadas, elas não perderam as esperanças de superar esta situação.

O impacto da pandemia

Essa é outra forma de contar sobre o impacto da pandemia, por meio do vídeo e da música. Desta vez, pelas crianças indígenas Kuakama dos Marañón; como exlica o diretor da Rádio Ucamara,  Leonardo Tello Imaina.

“Eu sonhei com o meu avô, e naquele sonho ele me disse algo quando estava vivo: _ Você tem um coração muito forte_.  Agora, só posso entender por que ele sempre me disse isso. Miguel Ángel nos contou, quando perguntamos às crianças, como eles viveram durante a quarentena. Jack esfrega as mãozinhas nos olhos, que se encheram de lágrimas, como se expulsasse tudo o que há muito estava guardado. Ele disse que seus primos ficaram sem a mãe e que era muito triste.  “Mamãe, quem vai cuidar de nós se você e meu pai estão morrendo porque estão infectados com COVID19?” _ Martín, de 9 anos, perguntou à mãe. 

Quantas coisas terão passado pela sua cabeça até você chegar a essa questão!

“Quando olhei para a rua, estava tudo vazio e escuro”, diz Miguel. Nesse momento, comecei a desenhar e criar quadrinhos e personagens, percebi que sou bom com meu lápis. Com a quarentena veio o silêncio. “No silêncio, você pode ouvir os pássaros, os sapos.”

Na TV, todos os dias havia notícias de mortos, que em todos os países havia gente morrendo e isso dava medo: “Não queria que nada acontecesse com minha família”, conta Melissa. Com a quarentena veio o medo, uma angústia que não tinha explicação, uma rotina que tinha muitas proibições. Também na Amazônia, muitas famílias que moram na cidade optaram por se isolar e voltar para suas aldeias. “Lá a gente tomava banho no barranco, comíamos o caimito [um fruto] que já estava caindo. Os cantos dos bichos faziam a gente sentir como se nada estivesse acontecendo”,  conta Jack;  que deixou sua casa em um assentamento na cidade, para ir para sua comunidade . Com a quarentena veio o distanciamento.

“Minha mãe fez um chá com alho, “grapefruit, kion”. Lavávamos as mãos muito bem e cuidadosamente. Aquele chá estava muito feio, mas mesmo assim bebi porque não queria pegar. Um dia, a febre e a tosse apoderaram-se de mim e com aqueles chás que a minha mãe nos deu estamos curados ”, diz María Celeste (de 8 anos). Na minha comunidade, durante a quarentena, meu avô me explicou sobre as plantas e para que serviam. Não houve atendimento no posto médico e todos nós tomamos o chá preparado com vegetais e ninguém morreu.

“Eu cuidei do meu irmão mais novo, porque meus pais saíram para trabalhar.” Muitas crianças na Amazônia ficaram com fome, outras não conseguiram se conectar as aulas virtuais. Alguns caíram na luta contra a pandemia. Muitos nasceram, rompendo com o grito, o silêncio, como uma canção de nova vida.

“Queremos ver de novo as pessoas que amamos, embora tenhamos nos afastado, nossos corações não se separaram. Não gostamos de usar máscara, mas podemos ver com os sinais dos olhos, quando as pessoas estão rindo ”.

As crianças da Amazônia viveram essa pandemia de seus sonhos, de sua história, compreendendo com sua sensibilidade e suas formas de ver o mundo, como o medo e a dor tomaram conta do planeta. Eles também sentiram abandono, injustiça, estômagos vazios. Na Amazônia, muitas crianças sofrem de anemia severa, seus corpos também apresentam alergias e hematomas pela poluição e indiferença. Mas seus rostos são também as mesmas razões para a humanidade insistir em novos modos de ser, de conviver ao sair desse confinamento.

Os meninos e as meninas têm “um coração muito forte, não importa que sejam pequenos”; quer pela esperança, pelo canto, pela coragem de grandes heróis nestes tempos é possível unir corações e construir tempos melhores.

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Fonte:
Juan Carlos Ruiz Molleda.  Disponóvel em: https://www.facebook.com/juancarlos.ruizmolleda/posts/1677550269086266

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