Rezos e flores

C. Monet, Buquê de Girassóis

Rezos e flores

…faz alguns dias, troquei algumas palavras com pessoas muito queridas.

Pessoas generosas me cercam!

Falamos da “roda viva” que nos sufoca ao longo dessa pandemia;  da Amizade e do Esperançar que nos sustenta. Para essas pessoas e mais um monte de gente que está atravessando momentos muito difíceis, ofereço rezos e flores; e para quem acolhe este blog, também dedico os primeiros versos (um quase haikai) que escrevi neste ano de 2022. Fiquem com a força de Tupã e dos Encantados!

Plantar girassóis
fazer rezos e canções
pra alegrar os dias

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Cerrado/DF, Jan. 2022

Canção óbvia

Detalhe de girassol, de van Gogh

Canção óbvia  

        Paulo Freire*

Escolhi a sombra desta árvore

para repousar do muito que farei,

enquanto esperarei por ti.

Quem espera na pura espera

vive um tempo de espera vã.

Por isto, enquanto te espero

trabalharei os campos

e conversarei com os homens.

Suarei meu corpo, que o sol queimará;

minhas mãos ficarão calejadas;

meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;

meus ouvidos ouvirão mais,

meus olhos verão o que antes não viam,

enquanto esperarei por ti.

Não te esperarei na pura espera

porque o meu tempo de espera

é um tempo de quefazer.

Desconfiarei daqueles que virão dizer-me

em voz baixa e precavidos:

É perigoso agir

É perigoso falar

É perigoso andar

É perigoso esperar, na forma em que esperas,

porque esses recusam a alegria de tua chegada.

Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,

com palavras fáceis, que já chegaste,

porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,

antes te denunciam.

Estarei preparando a tua chegada

como o jardineiro prepara o jardim

para a rosa que se abrirá na primavera.

*Paulo Freire. Pedagogia da indignação. São Paulo: Unesp, 2000

Fios do tempo em forma de haikai

FIOS DO TEMPO: RESISTÊNCIA INDÍGENA EM FORMA DE HAIKAI

Escritora indígena do Rio Grande do Norte lança obra no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

por Isabel Taukane (povo Kurâ-Bakairi,  Drª em Cultura Contemporânea, pela UFMT)

A produção de escritores indígenas tem levado o pensamento e o modo de vida indígena para púbico interessado pela temática da cultura indígena. Por outro lado, para escritores indígenas a produção de obras literárias é uma ferramenta de luta e resistência.

A palavra é resistência, resistir é fazer a defesa daquilo que importa para os povos indígenas, os valores ancestrais. O mundo capitalista a cada dia impõe a esses povos uma vida que é alheia, e nos últimos tempos cresceram as ofensivas para diminuir direitos já adquiridos pelos povos originários, na Constituição de 1988.

O livro é uma ferramenta, no qual se faz também conhecer a singularidade dos povos indígenas. A obra literária dá voz para aquilo que não se expressa por palavras, como por exemplo: as árvores, os animais, a água e as aves, entre outros seres. O livro é um meio em que se pode trazer o mundo xamânico, aquele falado pelos pajés; um mundo em que os seres da natureza podem ganhar vida e falar diretamente ao coração das pessoas.

A linguagem do coração, talvez seja a que constitui a poética indígena e a obra “Fios do tempo: quase haikais” da escritora indígena Graça Graúna é um alento, uma mensagem de cura para um mundo que passou por uma pandemia. É um chamamento para retirar as poeiras do luto. É uma convocação para enxergar as belezas que existem na Ameríndia.

O livro está no formato cartonero, isto é, feito artesanalmente um a um pela Editora pernambucana Baleia Cartonera. O movimento cartonero surgiu em 2003, na Argentina, durante a crise econômica e o alto índice de desemprego no pais. Nesse contexto, o livro revela-se como um instrumento de resistência; traz o ativismo e a proposta de sustentabilidade ambiental, revolucionando o sistema de produção de obras literárias. Esses princípios também foram fundamentais para a escolha da escritora indígena Graça Graúna em publicar na editora Baleia Cartonera.

Para saber mais:

QUANDO: 10 de dezembro de 2021, às 19h.

ONDE: https://www.youtube.com/c/UFRPEoficial

SOBRE A AUTORA:

Graça Graúna é indígena do povo Potiguara, do Rio Grande do Norte. Nasceu na pequena cidade de São José do Campestre a 70km das cidades de Goianinha e Canguaretama; onde vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu. Filha da Terra e de Tupã. Mãe, avó, escritora, educadora, professora na Universidade de Pernambuco (UPE), na área de Literata e atua também, no curso Licenciatura em Ciências Sociais e responsável pelo Blog “Tecido de Vozes” (gracagrauna.com), no WordPress.