Canção óbvia

Detalhe de girassol, de van Gogh

Canção óbvia  

        Paulo Freire*

Escolhi a sombra desta árvore

para repousar do muito que farei,

enquanto esperarei por ti.

Quem espera na pura espera

vive um tempo de espera vã.

Por isto, enquanto te espero

trabalharei os campos

e conversarei com os homens.

Suarei meu corpo, que o sol queimará;

minhas mãos ficarão calejadas;

meus pés aprenderão o mistério dos caminhos;

meus ouvidos ouvirão mais,

meus olhos verão o que antes não viam,

enquanto esperarei por ti.

Não te esperarei na pura espera

porque o meu tempo de espera

é um tempo de quefazer.

Desconfiarei daqueles que virão dizer-me

em voz baixa e precavidos:

É perigoso agir

É perigoso falar

É perigoso andar

É perigoso esperar, na forma em que esperas,

porque esses recusam a alegria de tua chegada.

Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me,

com palavras fáceis, que já chegaste,

porque esses, ao anunciar-te ingenuamente,

antes te denunciam.

Estarei preparando a tua chegada

como o jardineiro prepara o jardim

para a rosa que se abrirá na primavera.

*Paulo Freire. Pedagogia da indignação. São Paulo: Unesp, 2000

Fios do tempo em forma de haikai

FIOS DO TEMPO: RESISTÊNCIA INDÍGENA EM FORMA DE HAIKAI

Escritora indígena do Rio Grande do Norte lança obra no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

por Isabel Taukane (povo Kurâ-Bakairi,  Drª em Cultura Contemporânea, pela UFMT)

A produção de escritores indígenas tem levado o pensamento e o modo de vida indígena para púbico interessado pela temática da cultura indígena. Por outro lado, para escritores indígenas a produção de obras literárias é uma ferramenta de luta e resistência.

A palavra é resistência, resistir é fazer a defesa daquilo que importa para os povos indígenas, os valores ancestrais. O mundo capitalista a cada dia impõe a esses povos uma vida que é alheia, e nos últimos tempos cresceram as ofensivas para diminuir direitos já adquiridos pelos povos originários, na Constituição de 1988.

O livro é uma ferramenta, no qual se faz também conhecer a singularidade dos povos indígenas. A obra literária dá voz para aquilo que não se expressa por palavras, como por exemplo: as árvores, os animais, a água e as aves, entre outros seres. O livro é um meio em que se pode trazer o mundo xamânico, aquele falado pelos pajés; um mundo em que os seres da natureza podem ganhar vida e falar diretamente ao coração das pessoas.

A linguagem do coração, talvez seja a que constitui a poética indígena e a obra “Fios do tempo: quase haikais” da escritora indígena Graça Graúna é um alento, uma mensagem de cura para um mundo que passou por uma pandemia. É um chamamento para retirar as poeiras do luto. É uma convocação para enxergar as belezas que existem na Ameríndia.

O livro está no formato cartonero, isto é, feito artesanalmente um a um pela Editora pernambucana Baleia Cartonera. O movimento cartonero surgiu em 2003, na Argentina, durante a crise econômica e o alto índice de desemprego no pais. Nesse contexto, o livro revela-se como um instrumento de resistência; traz o ativismo e a proposta de sustentabilidade ambiental, revolucionando o sistema de produção de obras literárias. Esses princípios também foram fundamentais para a escolha da escritora indígena Graça Graúna em publicar na editora Baleia Cartonera.

Para saber mais:

QUANDO: 10 de dezembro de 2021, às 19h.

ONDE: https://www.youtube.com/c/UFRPEoficial

SOBRE A AUTORA:

Graça Graúna é indígena do povo Potiguara, do Rio Grande do Norte. Nasceu na pequena cidade de São José do Campestre a 70km das cidades de Goianinha e Canguaretama; onde vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu. Filha da Terra e de Tupã. Mãe, avó, escritora, educadora, professora na Universidade de Pernambuco (UPE), na área de Literata e atua também, no curso Licenciatura em Ciências Sociais e responsável pelo Blog “Tecido de Vozes” (gracagrauna.com), no WordPress.

Fios do tempo: um profundo respiro

Crédito da foto: GGraúna

Fios do tempo (quase haikais), novo livro da escritora Graça Graúna, um profundo e revigorante respiro!

por Cláudio  Henrique (jornalista, MS em Comunicação, pela UFMG)

Graça Graúna é mais que escritora, é costureira – em todos os sentidos e representações. Costura a vida. Vida que se faz teia. Teia de afetos. A autora entrega-se a esse emaranhado – abraça e compõe. Não se esquiva ao sopro do vento, nem lhe escapa o canto do pássaro. O tempo corre em suas veias, escorre na ponta dos dedos, o papel recebe as gotas poéticas. A voz ecoa. Tudo é imagem e som.

A escrita de Graça Graúna tem uma sonoridade peculiar que só as literaturas de autoria indígena possuem. A autora não desperdiça palavras e não economiza sentimentos. Um constante devir-tempo-espaço. Poética visceral, poesia ancestral, descolonizadora. Verbo encarnado!

Fios do tempo (quase haikais), apresenta-se como um mosaico Ameríndio, onde beija-flor, ipês, cajueiros, quaresmeiras, umbuzeiros, buganvílias, hibiscos se entrelaçam aos rios e matas, aos arranha-céus e ao céu, ao sol e ao mangue, aos restos do dia e aos mistérios da noite, aos encantos da lua e ao som da flauta do pajé. Poemas minimalistas embalados pela [aparente] simplicidade e sabedoria, uma obra de arte a ser contemplada pelas mentes aceleradas e inquietas.

Poesia é arte. Arte é respiro. A literatura de Graça Graúna é respiro. Mais que isso. É refúgio, alento, grito, fúria, calmaria, tradução do indizível, lugar de memórias, do vivido, do sonhado, do fabulado. Fios do tempo (quase haikais) são fragmentos que se estendem no tempo da escrita e no espaço das páginas.

Graça Graúna é a verdadeira expressão poética feminina contemporânea e, parafraseando a autora, enquanto houver poesia, existirá comunicação! Fios do tempo (quase haikais), nos dá o direito de sonhar e tecer a vida junto de quem fez as primeiras costuras e nos entregou. Costura no sentido figurado e literal porque a edição é da Baleia Cartonera, voltada para a produção de livros de forma totalmente sustentável. Desde 2020, a editora “lança livros de gente grande com os pés no chão. Gente que, tantas vezes, com os seus afazeres de poesia, boniteza e esperança entoa um ritmo tão poderoso que sustenta os céus sobre nossas cabeças”.

Movimento Cartonero

Surgiu em 2003, na Argentina, e foi fruto da sobrevivência dos escritores e da população desempregada do país. Os livros no formato cartonero são feitos artesanalmente e de papelão. No Brasil, especialmente no Nordeste, esse tipo de confecção de obras chegou e ganha cada vez mais popularidade. Em Pernambuco, esse movimento começou em 2015. O Movimento Cartonero é, sem dúvida, um grande aliado da preservação ambiental e da literatura. Os materiais utilizados podem ser diversos – papelão para a capa, caixa de leite UHT, que tem um melhor acabamento, além de papel para impressão, linha e tintas.

A autora

Graça Graúna: mulher indígena do povo potiguara do Rio Grande do Norte. Nasceu na pequena cidade de São José do Campestre/RN a 70km das cidades de Goianinha e Canguaretama; onde vivem os parentes indígenas potiguara, na Aldeia Catu. Filha da Terra e de Tupã. Mãe, Avó, Escritora, Educadora, Professora da Universidade de Pernambuco (UPE), na área de Literatura e com atuação também, no Curso de Licenciatura em Ciências Socais. Responsável pelo “Blog Tecido de Vozes”, (gracagrauna.com), no WordPress. Não tem Facebook, nem Twitter; mas respeita muito quem sabe lidar com leveza e respeito nas redes sociais. Gosta de escrever e receber cartas e aproveita as horas vagas para costurar, rabiscar/desenhar e fazer aquarelas com café.

Serviço

Lançamento do livro “Fios do tempo (quase haikais)”, de Graça Graúna

Canal: https://www.youtube.com/c/UFRPEoficial

Quando: 10 de dezembro de 2021

Horas: 19h

Contato: teardapalavra@gmail.com

Ficha técnica

Título: Fios do tempo (quase haikais)

Autor: Graça Graúna

Apresentação: Paula Santana

Concepção: Robson Farias e Rodrigo Aquino

Diagramação e montagem: Rodrigo Aquino

Editora: Baleia Cartonera

Ano: 2021