…pobre Planeta

Imagem: Google

***para Juscelino Mendes e Diacui,
meus irmãos da etnia Pataxó/BA ***
I
Tive sonhos imundos
sonhos estranhos
pesadelos…
Troncos seculares de árvores mortas
àguas turvas, animais em chama
tamanduás pisoteados pelo progresso
nossos curumins órfãos
nossos velhos desesperados.
II
Vi a morte de perto
e a sua capa pesou em meus ombros.
Ouvi discursos bonitos
quais túmulos caiados
e quando os meus olhos se fecharam
veio um pedaço de rio à beira da morte
e desabou sobre mim
os seus descaminhos.
III
Vi os meus parentes desnutridos
vi tanta miséria
que o meu pranto se transformou
num rio triste, sem fim.
IV
E apesar da escuridão
sonhei com o amanhecer
desejei tanto viver
que ouvi um sabiá cantar na mata
e ao seu lado, uma voz guerreira:
V
_ Acordai, acordai,
que é chegada a hora
de repensar nossa atitude
em relação ao Planeta!
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 7 de junho de 2009
NOTA: poema publicado no Overmundo.

Poema torto

Foto: Liane Neves

Quando eu crescer
quero ser Quintana
cavar o infinito
dos caminhos do mundo.

Ah, quando eu me for
“hei de levar uns poemas tortos”
como seu eu fosse também
o último ser vivente

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 29 de maio de 2009

Graça Graúna. Canto mestizo. Marica/RJ: Blocos Editora, 1999, p.62 [prefácio de Leila Miccolis]

NOTA: poema publicado no Overmundo.

Dádiva

The Cafe Terrace, Van Gogh
A sensação de quem vive ou está só
pode ser comparada a uma pedra
que emerge da escuridão da terra
qual diamante que brilha feito sol.
A solidão é dádiva da vida
é meta suprema, dá força ao ser
embora não seja para todos
a solidão faz parte do crescer
ainda que da prisão a luz sufoque
e as chagas do tempo libertem o ser
a resistência desabrocha enfim
e ao perceber o reflexo da clausura
é acolhendo o interior da pedra
que se compõe a leveza do ser
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 22 de maio de 2009
NOTA: poema publicado no Overmundo.