Terra fecunda

Ao Katira Ativista a nossa gratidão pela confiança e generosidade por autorizar a publicação da sua arte revolucionária neste “Tecido de Vozes; especificamente o seu quadro/tela em  homenagem aos povos indígenas. Em 19/04/2021, ele escreveu: “Aquele que, no Brasil, fecha os olhos para a sabedoria dos povos originários, está distante de compreender a si mesmo” (@ilustrakat). Assim, convidamos à reflexão sobre o 12 de outubro, considerando que esse dia seja dedicado à Resistência Indígena.

Arte: Katira Ativista

Terra fecunda

“Somos parte da terra e ela faz parte de nós” (Chefe Seatle, 1854)

A Ancestralidade habita o coração da Terra
e dentro de nós
somos tecidos de vozes 
da diversidade de mundos 
de história em história
de memória em memória.

Somos filhos e filhas 
da Terra Viva
da Terra Fecunda 
de Pindorama Terra frondosa

Filhos e filhas
da Terra Madura
do florescimento
nós somos
a multiplicação da semente 
dos povos originários

Estamos aqui.
Nós existimos!
Nós resistimos
e transcendemos o dito 
pré-colombiano... pré-cabralino...

Somos Abya Yala,
Kuna, Chibcha, Mixteca, 
Zapoteca, Ashuar, Huaraoni, 
Guarani, Tupiniquim, Caiapó, 
Aymara, Ashaninka, Kaxinawá, 
Potiguara, Tikuna, Krenak, 
Paiacu, Tarairiú, Terena, 
Quéchua, Karajá, Mapuche, 
Yanomami, Xavante
e muito mais povos
na luta pela vida
por uma Terra sem males

Abya Yala Terra fecunda
Terra madura
e em florescimento

Somos tecidos de vozes
da diversidade de mundos 
de história em história
de memória em memória
a Ancestralidade nos une 
no plantio e na colheita
de abóbora, batata e milho 
entre o que há de sagrado 
para sustentar o céu
e o encantamento

                                                                               
                                                                                          Graça Graúna 
                                                                               (Filha do povo potiguara/RN)



	

Imagem-palavra: Rio Catu

Escrevi uns versos que, aos poucos, se transformou em haikai; à semelhança de um casulo que vira borboleta. Até acho atrevimento de minha parte dizer que escrevo haicais; não sou haijin/poeta, mas gosto de poesia e poetas. Muitas vezes, tento driblar os desassossegos com a alma da palavra, da música, da pintura e logo me recupero como sugere o haikai do peixe, da borboleta e outras formas do sagrado que habitam o nosso Rio Catu (RN): 

Corro entre as pedras

em direção ao Catu:

nosso Rio bonito

Escrever, pintar, cantar são formas de resistência. Quando escrevo, rabisco e solto “o fantasma da minha voz” (como diz a canção), então respiro. Não fosse assim, o poeta Drummond não suportaria as dores do mundo; o poeta Bandeira não respiraria e cá, entre nós, eu não estaria aqui, expondo o instante da palavra e as tessituras da ancestralidade, da minha alma. Nessa inquietude, vasculhei a memória, rabisquei ideias para ilustrar o poema.

Folheei velhos livros, procurei amigos e veio uma luz: um amigo com engenho e arte. Ele mesmo, Nilton Xavier que domina os pincéis e aquarela poeticamente o azul do céu e as águas dos rios. Ele aquarela com amor a paisagem sagrada dos povos originários do Rio Grande do Norte.

Aquarela: Niton Xavier, set.2021

E foi assim, que os Encantados acolheram o meu desejo de chegar (nesse restinho de primavera) mais perto de um rio, do nosso bonito Rio Catu. Enviei o haikai para Nilton e ele, generosamente, ilustrou. Como se não bastasse, ele também explicou que “as abstrações (na aquarela) são motivos potiguara da pintura corporal usados no Catu, a saber, o peixe e a borboleta”. Gratidão, Nilton Xavier. Na sua arte habita a tessitura dos sonhos e sendo assim, saúdo com o meu pequeno poema e a sua pintura os/as parentes da aldeia e do Rio Catu.

Que a força de Tupã e dos Encantados nos acolha!

Graça Graúna (filha da nação potiguara/RN)