Literatura Indígena: desconstruindo estereótipos, repensando preconceitos.

Uma explicação necessária:  em 2008, recebi da Profª Magdalena Almeida, do Curso de História, da Universidade de Pernambuco (UPE) o convite para realizar uma palestra com o objetivo de debater a Lei 11.645. Foi uma experiência impar contar com o apoio do Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval.  O Ciclo de Debates “Histórias e culturas indígenas: caminhos e dilemas contemporâneos”, realizado no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife, foi um dos primeiros a abordar a Lei 11.645/08. Para ilustrar o presente artigo (revisado e atualizado), compartilho o Cartaz do Ciclo de Debates que reuniu uma plateia de estudantes, pesquisadores e públicos de áreas afins para debater uma Lei que fora sancionada há um mês e quinze dias, antes da realização do referido evento.

Literatura Indígena: desconstruindo estereótipos, repensando preconceitos*

Graça Graúna (Indígena potiguara/RN)

O que é ser indígena hoje? Qual a visão da cultura e da história indígena na mídia, na poesia, na prosa e nos livros didáticos? Como distinguir as especificidades da literatura indígena em meio ao processo de transculturação e reconhecer a existência dessa literatura, em meio a tantos “apagamentos”? Quais os pontos de confluência entre os diferentes saberes dos povos indígenas no Brasil ou em Quebec, no Paraguai ou no México, na Guatemala ou no Chile, no Peru ou na Bolívia, levando em conta o processo de hifenização?

Esse questionamento é um convite para desconstruir estereótipos e repensar os preconceitos; um convite para discutir a possibilidade de sonhar um mundo melhor; um convite que deve estender-se a todos os simpatizantes da cultura e da história indígena, levando em conta que a literatura indígena, por exemplo, ainda é pouco estudada em seu aspecto contemporâneo (cotidiano) e, particularmente, em seus aspectos fronteiriços.

Identidades, utopia, cumplicidade, esperança, resistência, deslocamento, transculturação, mito, história, diáspora e outras palavras andantes[1] configuram alguns termos possíveis para designar, a priori, a existência da literatura indígena contemporânea no Brasil. Gerando a sua própria teoria, a literatura escrita dos povos indígenas no Brasil pede que se leiam as várias faces de sua transversalidade, a começar pela estreita relação que mantém com a literatura de tradição oral, com a história de outras nações excluídas (as nações africanas, por exemplo), com a mescla cultural e outros aspectos fronteiriços que se manifestam na literatura estrangeira e, acentuadamente, no cenário da literatura Nacional.

Pensemos, então, na escassez de estudos em torno do assunto como decorrência do preconceito, da falta de reconhecimento da existência de uma literatura que “foi sistematicamente negada até bem avançado o século XX”, como afirma René Capriles (1987, p. 5). Embora considere que a discussão em torno da existência dessa literatura esteja amplamente superada, Capriles mostra em sua análise a que se deve a falta de reconhecimento:

O princípio no qual sempre se basearam os críticos dos valores desta narrativa sempre foi a etnocentrista e discutível afirmação de que todos os povos do nosso continente desconheciam a linguagem escrita fonética tal como ela é conhecida no mundo ocidental europeu desde a sua invenção pelos fenícios e o seu aperfeiçoamento realizado pelos gregos. [2]

Os estereótipos e os preconceitos no campo da cultura e da história indígena são apenas  uma ponta do iceberg; mas não levaremos mais 500 anos dependendo do aval das academias que só reconhecem a expressão literária indígena se esta for “baseada unicamente [e obrigatoriamente] na existência do livro [‘branco’] tal como o conhecemos na atualidade”, conforme intuímos do pensamento de Capriles. Os tempos são outros: recentemente, foi aprovada a Lei 11.645, em 10 de março de 2008, que obriga a inclusão da História e da Cultura indígena nos bancos escolares; graças à luta de lideranças dos povos originários, isto é, considerados indígenas; povos de cada nação com sua língua, sua cultura, sua tradição e espiritualidade diferenciadas da sociedade dominante. Dos estereótipos e preconceitos que tem testemunhado, o poeta e descendente indígena Geraldo Maia traz o alerta seguinte:

Na grande maioria de encontros, seminários, colóquios, congressos que pude assistir a maioria dos intelectuais convidados, quase todos doutores e mestres renomados revelaram-se domesticados ao texto do qual buscam apenas a inteligência dos autores sem ambição alguma de tornarem-se sujeitos da compreensão do que lêem, temerosos de arriscarem algo pessoal, criativo e relacionado com o que vem ocorrendo desde a sua própria realidade (MAIA, 2008). [3]

No mesmo artigo, Maia enfatiza que, infelizmente, nas escolas de todos os níveis a referência ainda é do invasor/colonizador. Tal comportamento, diz ele, “fez com que se criasse uma Lei (10.639/03) obrigando o ensino da história e da cultura africana em todo o país, e mais recentemente a Lei 11.645”.

Século XXI: a literatura indígena no Brasil continua sendo negada, da mesma forma com que a situação dos seus escritores e escritoras continua sendo desrespeitada. A situação não é diferente com relação aos escritores negros e afrodescendentes. Essa questão ainda não se livrou do prisma etnocentrista. Como se pode ver, a situação do(a) escritor(a) negro(a) e indígena não está desapartada da realidade. A sua história de vida (autohistória) configura-se como um dos elementos intensificadores na sua crítica-escritura, levando em conta a história de seu povo. Sendo assim, as especificidades da literatura indígena, tanto quanto as particularidades da literatura africana devem ser respeitadas em suas diferenças. Jean-Paul Sartre (1989, p. 51) comenta que uma obra de arte “pode se definir como uma apresentação imaginária do mundo, na medida em que exige a liberdade humana [pois] por mais sombrias que sejam as cores com que se pinta o mundo, pinta-se para que homens livres experimentem[…]sua liberdade”. [4]

Em outubro de 1988, no México, quando intelectuais e historiadores latinoamericanos se reuniram para discutir questões como identidade, interculturalismo, mestiçagem, discurso indígena e marginalidade no simpósio sobre os quinhentos anos de história na América Latina, o equatoriano Carlos Paladines (1991) apresentou um estudo intitulado “Discurso indígena e discurso de ruptura”, no qual observa que o indígena deixa de ser tema de antropólogos, etnólogos, de alguns sociólogos o de pintores, novelistas e escultores (‘indigenismo’) e passa a ser assumido pelo mesmos indígenas (‘indianismo’)”[5]. Os conceitos indigenismo e indianismo (no Peru) diferem do significado desses mesmos termos empregados no Brasil.

Citado por Angel Rama (2001, p. 300), o estudioso José Carlos Mariátegui traz para o estudo da literatura, já em 1928, a problematização em torno desses aspectos, mas ressalva que “uma literatura indígena, se tiver de vir, virá a seu tempo. Quando os próprios índios estiverem prontos para produzi-la”. Na distinção entre literatura indígena e indigenista, Mariátegui diz que a primeira se refere à “produção intelectual e artística realizada pelos índios, conforme seus próprios meios e códigos”[6]; a segunda distinção busca informar sobre o universo e o homem indígenas”.

Mais uma questão se coloca, com o objetivo de conclamar a sociedade para repensar as origens da literatura no Brasil. Por que enfatizar a literatura Indígena? A pergunta vem de Eliane Potiguara, ao estender a sua ideia da I Conferência Internacional de Escritores Indígenas e Afrodescendentes. Na sua percepção, as articulações em torno desse Encontro configuram mais uma porta que se abre na História indígena ou mais um caminho para combater o preconceito literário e o descaso com que a literatura indígena é tratada no Brasil. Os manifestos literários de E. Potiguara se transformam em convite, para que nos tornemos “multiplicadores de ideias que marcam a sua passagem no planeta TERRA e que buscam contribuir para o avanço da cultura da paz, da ética, do amor, numa grande corrente transformadora de ideias”[7]. Tecendo seu próprio relato, respeitando as diferenças, salvaguardando a Mãe-Terra, os escritores indígenas avançam a cada página – pelo prazer do texto que implica também uma literatura de combate, como a sugere a poesia de Eliane Potiguara que expõe sua indignação:

o paternalismo vê nas histórias e cultura indígenas, um objeto de estudo antropológico e nunca literário, político ou até mesmo, espiritual, caso o pensamento parta de um líder espiritual. E todos nós sabemos que paternalismo é uma forma sutil de racismo e poder. Observem quando vocês usam sua paternidade ou maternidade para aplicar o pater/maternalismo. Seus filhos tornam-se mimados e errantes… Seu poder oprime o educando e em breve ele vai se revelar. É assim que a ciência tem tratado a essência e a filosofia indígenas (POTIGUARA, 2002) [8]

A questão da especificidade da literatura indígena no Brasil implica um conjunto de vozes entre as quais o(a) autor(a) procura testemunhar a sua vivência e transmitir ‘de memória’ as histórias contadas pelos mais velhos, embora muitos vezes se veja diferente aos olhos do outro. Nesse sentido, a escritora indígena Darlene Taukane (1999, p 17) fala da experiência que foi o seu deslocamento da aldeia para completar os estudos na cidade, levando-a mais tarde a transformar em livro a história do seu próprio povo, os Kurâ-Bakairi (MT): “quando senti que tinha firmeza em reproduzir e transformar de memória aquilo que ouvia [dos mais velhos], pude então sair e conversar com outras pessoas” [9]. Essa percepção da memória, da “autohistória” e de alteridade configura um dos aspectos intensificadores do pensamento indígena na atualidade. Observamos na “autohistória de Taukane, que a noção de deslocamento não constitui um ato voluntário. Nesse sentido, ela comenta:

Foram vários os momentos em que me vi diante dos outros e senti necessidade de autoafirmação. Senti necessidade de ser ouvida, de que acreditassem e conhecessem a riqueza tão vasta de uma cultura indígena. Talvez tenha sido a minha meta, de que os povos indígenas falem por eles mesmos (TAUKANE, 1999, p. 18).

Essas observações permitem identificar algumas características da literatura indígena que, a priori, sugerem problematizações associadas aos seis temas transversais que foram escolhidos e elaborados pelos professores indígenas e seus consultores para o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas: a) Terra e conservação da biodiversidade; b) Auto-sustentação; c) Direitos, lutas e movimentos; d) Ética; e) Pluralidade cultural; f) Saúde e educação. As implicações em torno dessa temática permitem compreender o aspecto da autohistória e a sua relação com a oralidade e a escrita, entre outras questões identitárias que emanam da literatura contemporânea de autoria indígena no Brasil.

*Artigo originalmente publicado no blog <www.ggruna.blogspot.com>, em 22 de abril de 2008 e disponível também, no site DHNet.

Notas

1. Uma expressão de Eduardo Galeano, em: As palavras andantes. Porto Alegre: L&PM, 1994.
2. CAPRILES, René. A força da poesia pré-colombiana. In: Letras & Artes: São Paulo, abr., 1987:5.
3. MAIA, Geraldo. Que fronteiras? Disponível em: <www.ggrauna.blogspot.com>. Acesso em 15 mar. 2008.
4. SATRE, Jean-Paul. O que é literatura? São Paulo: Ática, 1989.
5. PALADINES E., Carlos. Discurso indígena y discurso de ruptura. In: Quinientos años de historia, sentido e proyección. México: Instituto Panamericano de Geografia y Historia; Fundo de Cultura Económica, 1991, pp. 107-126.
6. RAMA, Angel. Literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Edusp, 2001.
7. Cf. POTIGUARA, Eliane. Matéria publicada pelo IBASE. Disponível em: <elianepotiguara@terra.com.br>. Acesso em: 17 jun. 2002.

8. Conforme nota 7. Acesso em: 12 jun. 2002.
9. TAUKANE, Darlene. A história da educação escolar entre os Kurâ-Bakairi. Cuiabá: Editora do Autor, 1999.

QUESTÕES PARA DEBATER

“…para acabar com os preconceitos, é essencial mostrar e valorizar a diversidade étnica e cultural que existe na sociedade…”


“a troca de lugares provoca um confronto de percepções, desarticula estereótipos, mostra diferentes estilos de vida e possibilita reconhecer que todos temos coisas em comum…”


“…os indígenas são considerados, em geral, ou povos incultos, agressivos, ou selvagens puros e inocentes. Essas visões estereotipadas provocam e alimentam a marginalização dos indígenas, cujas culturas não são valorizadas ou mostradas na mídia…”

Crianças indígenas narram a quarentena em música

“Para um único coração”

Tradução livre: Graça Graúna

Faço uma tradução livre da notícia que a Servind publicou em 29 de outubro de 2020, a respeito de uma canção composta por três crianças indígenas da etnia Kukama; localizada em Loreto (Amazônia peruana). A canção reflete a experiência das crianças indígenas sobre o “corona vírus”. Segue , então, a notícia e o vídeo que foi produzido pela Rádio Ucamara.

A canção intitulada “Para um único coração”, ou “Iatsaku”,  reflete as experiências de três crianças indígenas Kukama, durante a quarentena, diante da medida imposta pelo Estado para controlar a disseminação do corona vírus. O vídeo foi produzido pela Rádio Ucamara.

Os autores da música contam que apesar da pouca idade, enfrentaram esta tragédia – a pandemia – com paciência e muita força. “Somos crianças com um coração muito forte. Criamos uma música de coragem para unir as pessoas e construir tempos melhores”, dizem os pequenos compositores da música.

As crianças Kukama são consideradas pequenos heróis, porque enfrentaram não apenas o corona vírus e o isolamento social; enfrentaram também a fome e o abandono do Estado. Apesar disso, elas não perderam a esperança de construir uma sociedade onde não haja mais morte e violência.

Vejam a narrativa de Juan Carlos Ruiz Molleda (no Facebook) e suas impressões sobre o vídeo das crianças Kukama:.

Os pequenos heróis Kukamas

(Por Juan Carlos Ruiz Molleda)

Martín (9 anos)  relata que durante a quarenta descobriu sua paixão pelo desenho e que também aprendeu a valorizar o silêncio, porque ouvia o canto dos pássaros e sapos.  Por sua vez, Melissa (11 anos) confessa que a quarentena a obrigou a se distanciar dos primos e amigos, o que lhe causou muita tristeza; mas entendeu que era preciso cuidar da família. Ela disse: “Agora você sabe que a distância não separa os corações”. María Celeste (8 anos) diz que seu avô lhe ensinou tudo sobre a força das plantas. Ele comenta que as pessoas de sua comunidade não morreram, porque fizeram uso dos preparos vegetais. As crianças Kukama enfrentaram essa nova experiência com sua sensibilidade e perspectiva de ver o mundo. Embora estejam um pouco assustadas, elas não perderam as esperanças de superar esta situação.

O impacto da pandemia

Essa é outra forma de contar sobre o impacto da pandemia, por meio do vídeo e da música. Desta vez, pelas crianças indígenas Kuakama dos Marañón; como exlica o diretor da Rádio Ucamara,  Leonardo Tello Imaina.

“Eu sonhei com o meu avô, e naquele sonho ele me disse algo quando estava vivo: _ Você tem um coração muito forte_.  Agora, só posso entender por que ele sempre me disse isso. Miguel Ángel nos contou, quando perguntamos às crianças, como eles viveram durante a quarentena. Jack esfrega as mãozinhas nos olhos, que se encheram de lágrimas, como se expulsasse tudo o que há muito estava guardado. Ele disse que seus primos ficaram sem a mãe e que era muito triste.  “Mamãe, quem vai cuidar de nós se você e meu pai estão morrendo porque estão infectados com COVID19?” _ Martín, de 9 anos, perguntou à mãe. 

Quantas coisas terão passado pela sua cabeça até você chegar a essa questão!

“Quando olhei para a rua, estava tudo vazio e escuro”, diz Miguel. Nesse momento, comecei a desenhar e criar quadrinhos e personagens, percebi que sou bom com meu lápis. Com a quarentena veio o silêncio. “No silêncio, você pode ouvir os pássaros, os sapos.”

Na TV, todos os dias havia notícias de mortos, que em todos os países havia gente morrendo e isso dava medo: “Não queria que nada acontecesse com minha família”, conta Melissa. Com a quarentena veio o medo, uma angústia que não tinha explicação, uma rotina que tinha muitas proibições. Também na Amazônia, muitas famílias que moram na cidade optaram por se isolar e voltar para suas aldeias. “Lá a gente tomava banho no barranco, comíamos o caimito [um fruto] que já estava caindo. Os cantos dos bichos faziam a gente sentir como se nada estivesse acontecendo”,  conta Jack;  que deixou sua casa em um assentamento na cidade, para ir para sua comunidade . Com a quarentena veio o distanciamento.

“Minha mãe fez um chá com alho, “grapefruit, kion”. Lavávamos as mãos muito bem e cuidadosamente. Aquele chá estava muito feio, mas mesmo assim bebi porque não queria pegar. Um dia, a febre e a tosse apoderaram-se de mim e com aqueles chás que a minha mãe nos deu estamos curados ”, diz María Celeste (de 8 anos). Na minha comunidade, durante a quarentena, meu avô me explicou sobre as plantas e para que serviam. Não houve atendimento no posto médico e todos nós tomamos o chá preparado com vegetais e ninguém morreu.

“Eu cuidei do meu irmão mais novo, porque meus pais saíram para trabalhar.” Muitas crianças na Amazônia ficaram com fome, outras não conseguiram se conectar as aulas virtuais. Alguns caíram na luta contra a pandemia. Muitos nasceram, rompendo com o grito, o silêncio, como uma canção de nova vida.

“Queremos ver de novo as pessoas que amamos, embora tenhamos nos afastado, nossos corações não se separaram. Não gostamos de usar máscara, mas podemos ver com os sinais dos olhos, quando as pessoas estão rindo ”.

As crianças da Amazônia viveram essa pandemia de seus sonhos, de sua história, compreendendo com sua sensibilidade e suas formas de ver o mundo, como o medo e a dor tomaram conta do planeta. Eles também sentiram abandono, injustiça, estômagos vazios. Na Amazônia, muitas crianças sofrem de anemia severa, seus corpos também apresentam alergias e hematomas pela poluição e indiferença. Mas seus rostos são também as mesmas razões para a humanidade insistir em novos modos de ser, de conviver ao sair desse confinamento.

Os meninos e as meninas têm “um coração muito forte, não importa que sejam pequenos”; quer pela esperança, pelo canto, pela coragem de grandes heróis nestes tempos é possível unir corações e construir tempos melhores.

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Fonte:
Juan Carlos Ruiz Molleda.  Disponóvel em: https://www.facebook.com/juancarlos.ruizmolleda/posts/1677550269086266

Ailton Krenak vence o prêmio de intelectual do Ano

Ailton Krenak, no Congresso da Abralic/UFU.
Crédito da foto: G.Graúna

Apesar da pandemia, as notícias sobre literatura indígena ganham destaque. No início de setembro de 2020 foi noticiado o nome do vencedor do Premio Nacional de Literatura no Chile: Elicura Chihuailaf (povo mapuche)1. Da sua manifestação artística, cabe sublinhar que a sua poesia fala do sonho que se escuta ao pé da fogueira ou do fogão; dos diferentes sabores que exalam da terra; do cheiro da mata e do estrondar do trovão, como sugerem os versos do livro “Sonho azul”, do poeta mapuche. Para saber mais da poesia de Elicura, confira a resenha neste blog. No Brasil, a literatura indígena também ganhou destaque. Na segunda quinzena de setembro, a União Brasileira de Escritores (UBE) anunciou que o prêmio de intelectual do ano foi concedido ao indígena Ailton Krenak: ambientalista, escritor e uma das maiores lideranças do movimento indígena no Brasil.

Krenak: literatura e indignação

Entre as contribuições de Ailton Krenak, o livro “Ideias para adiar o fim do mundo” questiona “a forma que os brancos adotam para viver, abrindo mão da liberdade de estar em contato e em harmonia com a natureza”2. Esse livro foi destaque no Globonews, em 2019. Ao ser entrevistado nesse canal, Krenak falou da relação que algumas culturas mantêm com o sagrado. Nesse contexto, ele destacou a maneira como o Rio Ganges é respeitado pelos indianos e falou com indignação sobre o desrespeito e o descaso com que os rios são tratados no Brasil.

Sobre o ativismo de Ailton é importante ressaltar a participação desse líder na Assembleia Nacional Constituinte, em setembro de 1987; uma Assembleia marcada pela defesa da Emenda Popular da União das Nações Indígenas e pelo discurso histórico de Ailton, ao denunciar a política anti-indígena. É fundamental o pensamento de Krenak para a compreensão do nosso papel no mundo. Não é à toa que ele indaga sobre o que justifica ser parte de uma humanidade em que mais de 70% parece totalmente alienada do exercício de ser. A resposta de Ailton aponta para a desenfreada modernização, entre outras questões que quase ninguém vê:

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra barata em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se essas pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.3

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. Desses livros, citamos:  “A vida não é útil”. O autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. No livro  “A vida não é útil”, o autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica os “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

No formato e-book, disponível de forma gratuita, “O amanhã não está à venda” alerta que “a pandemia da Covid-19 obriga o mundo a reconsiderar seu estilo de vida”.

As contribuições do autor indígena se transformam em convite para as pessoas combaterem o consumismo; o racismo, a discriminação racial e outras formas de intolerância. Nesta perspectiva – ao refletir acerca da relação entre literatura e direitos humanos no pensamento de Krenak –  faz-se necessário sublinhar as palavras de Antonio Candido: “a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela”4.  

Sobre a manifestação poética em Ailton, considero importante compartilhar os versos que ele enviou (em depoimento pessoal, por telefone). Trata-se do poema intitulado “Um outro céu”; do ser indígena que evidencia a inquietação, a incerteza nas dobras do tempo que atinge todos em tempos de pandemia.

Para “concluir” esta breve reflexão, torno a perguntar: o que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A sociedade dominante tem muito a aprender com os povos originários. Pensando assim, reitero o papel da memória vinda dos povos indígenas; falo da importância que é o plural da voz do texto, porque é do coletivo que brota a esperança da terra. É esta a impressão que sempre carrego, quando escuto e leio as histórias, os cantos, os rezos xamânicos, a poesia que fazem parte do jeito de ser e de viver dos povos originários; quer seja na apreensão dos saberes historicamente construídos; na afirmação dos valores ancestrais e na luta de cada dia pelo fortalecimento da identidade, entre outros direitos indígenas; enfatizando, aqui, a demarcação de território.

Ameríndia, 29 de setembro de 2020

NOTAS

  1. Para saber mais, confira a resenha “Elicura, poeta mapuche…”, disponível em: https://gracagrauna.com/2020/09/12/elicura-poeta-mapuche-premio-nacional-de-literatura-2020/
  2. Entrevista ao site Amazônia real. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/. Acesso em, 29/09/20.
  3. GRAÚNA, Graça. Literatura indígena: espaço de (re)construção, resistência e protagonismo na produção cultural brasileira. In: SESC. Educação em rede, vol. 7, Rio de Janeiro: Sesc, 2019, pp. 106-120.
  4. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In; ______. Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 242.