Presidente da Funai leva puxão de orelha de Raoni

 Imagem extraida de Culturaspopulares

 

No ato de encerramento da Primeira Cumbre Regional Amazonica, evento promovido pela COICA – Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica, em parceria com a COIAB, que aconteceu de 15 a 18 de agosto em Manaus, para discutir alternativas para o combate ao aquecimento global,  o grande cacique Raoni Kayapó, lendário defensor do Xingu, deu um “puxão de orelha” no convidado da mesa, o Sr. Márcio Meira, presidente da FUNAI, e deu a ordem final, mandando ele sair da presidência do órgão indigenista oficial brasileiro.
“Tem que sair, você tá matando os povos indígenas. Tem que colocar outra pessoa que se preocupe com a gente”, afirmou o grande cacique Kayapo, puxando a orelha do Meira.
Fonte: Culturas populares e Marcos Terena

Encontro Pan Amazônico debate estratégias indígenas frente às mudanças climáticas

Imagem extraída do Google
Camila Queiroz -Jornalista da ADITAL
Ocorre na cidade de Manaus, capital do estado brasileiro do Amazonas, o Grande Encontro dos Povos – Saberes, Povos e Vida Plena em Harmonia com a Floresta, que teve início no último dia 15 e se estende até amanhã (18). Cerca de 300 lideranças indígenas dos nove países da Amazônia – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Venezuela, e Suriname – estão reunidas para trocar experiências e debater estratégias de luta relativas às mudanças climáticas e à garantia do direito ao território.
Coordenador geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Marcos Apurinã ressalta os principais temas tratados no encontro – créditos de carbono e financiamentos de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD+), direito à floresta, que está imbricado no direito ao território, e “autogovernança” – gestão indígena de seus territórios e recursos naturais.
O líder explica que o movimento indígena tirará encaminhamentos sobre os assuntos e publicará, ao final do encontro, um documento pontuando cada posição.
Ele adianta alguns consensos, discutidos nos dois primeiros dias do evento, em plenárias. “Primeiro é que os territórios e recursos naturais contidos neles devem ser para os indígenas. Isso é garantido no Brasil, mas não em todos os países”, afirma.
Outro tema importante diz respeito aos créditos de carbono. “Estabelecemos que os povos indígenas devem usufruir e ser recompensados pelos grandes bancos e empresas que financiam isso, mas também deixamos claro que deve ser aplicado com responsabilidade, não pode virar mercado de capital, e precisa respeitar a cultura dos povos”, enfatiza.
Além disso, Marcos acrescenta a preocupação com a floresta, que deve ser compensada. “Deve fazer reflorestamento, não é só tirar o carbono e pronto”, disse.
De posse do documento final do encontro, os indígenas pretendem divulgá-lo em todo o mundo, entre governantes e pessoas ligadas ao movimento ambientalista. Segundo Marcos, eventos como Rio+20 (Brasil, 2012) e Conferência das Partes das Nações Unidas para o Clima (COP 17), que ocorrerá neste ano, na África do Sul, são momentos interessantes para debater as posições indígenas.
Para o coordenador geral, a importância de um encontro como este, o primeiro realizado no Brasil, reside no fato de reunir os povos indígenas e perceber os problemas comuns a eles. “Com relatos de cada país, a gente vê que todos sofrem com o mesmo problema. A omissão dos governos tem contribuído para os massacres, em termos de educação, saúde. É um problema comum e a gente precisa se fortalecer, por isso essa iniciativa é muito positiva e precisa continuar”, arremata.
Megraprojetos
Amanhã (18), o encontro será encerrado com uma caminhada contra dois megaprojetos que afetam povos indígenas amazônicos: a hidrelétrica de Belo Monte, no estado brasileiro do Pará, e a estrada Villa Tunari – San Ignacio de Moxos, que liga Brasil e Bolívia, passando por dentro do Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), nos departamentos bolivianos de Cochabamba e Beni.
A concentração ocorrerá a partir das 17h30, no hotel Taj Mahal, de onde os manifestantes caminharão até o Largo Mestre Chico, no centro de Manaus.
Ontem (16), outro ato público, com apresentações culturais, demarcou repúdio ao projeto de Belo Monte e solidariedade aos povos afetados por ele.
O Grande Encontro dos Povos – Saberes, Povos e Vida Plena em Harmonia com a Floresta ocorre no Hotel Taj Mahal, Avenida Getúlio Vargas, 741 – Centro de Manaus.

Vida e morte nos caminhos Guarani

Imagem: Adital
Fontes: Egon Dionísio Heck –
assessor do Conselho Indigenista 
Missionário (CIMI) e  ADITAL
Companheiros(as) de estrada…, de partida e de chegada!
Vários e importantes momentos estão previstos para esta semana. Em Brasília, se realiza, nesta segunda-feira (15/08/11), a primeira reunião da Comissão do Conselho Nacional de Justiça, que visa contribuir com a solução dos problemas da não demarcação das terras indígenas no Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande o Seminário Povos Indígenas e Sustentabilidade – Saberes Tradicionais e formação acadêmica, na Universidade Católica Dom Bosco, estará propiciando um amplo espaço de informação, intercambio e debate, com a presença de lideranças indígenas da região, de várias partes do Brasil e de outros países como Colômbia e Peru. E a grande expectativa com relação às áreas de retomada de Pyelito Kuê e Mbarakay, no município de Iguatemi. Haverá também a mobilização de mais de quinhentos Guarani-Kaiowá na Aty Guasu em Passo Piraju, município de Dourados, de 19 a 22 de agosto. O encerramento será em Dourados com mobilização pública, caminhada pelos direitos indígenas, pela vida e pela terra, contra a violência e impunidade.

Abraços
Egon

Foram mais de mil quilômetros andados pelas aldeias e acampamento Kaiowá-Guarani, na fronteira com o Paraguai. Ali a vida anda de vagar, e a morte espreita nas esquinas da estrada.
Em todos os lugares em que chegávamos entregávamos uns papeis muito singelos. Eram os convites para a Aty Guasu no Passo Piraju. Oportunidade ímpar para rever os amigos, sentir o pulsar forte do coração Kaiowá-Guarani em suas diversas circunstâncias. Momento de ouvir palavras sábias do Nhanderu Atanásio, de sentir a alegria do grupo do Ypo’i, para os quais levamos material escolar, pois estavam dando aula “apenas com papel sulfite” como nos confidenciou uma liderança. Para eles também entregamos exemplar da revista Mensageiro que traz na capa foto de duas crianças do Ypo’i. À equipe da revista queremos externar, em nome dos Kaiowá Guarani a gratidão por todo o apoio que deram, e dizer que valeu e muito, a divulgação da realidade desse povo através do vídeo Semente de Sonhos, que foi distribuído em vários países da América do Sul.
A lua nos guiou até Kurusu Ambá. Lá chegamos ao entardecer. A comunidade estava reunida, celebrando a importante vitória que conseguiram na Justiça Federal, 3ª. Região, em São Paulo. Por unanimidade os juízes entenderam que a comunidade poderia ficar no local em que estão desde novembro de 2009, quando retornaram a uma pequena mata, do seu tekohá Kurusu Ambá. Foi maravilhoso poder passar a noite marcada pelo ritual e depois o silêncio total, apenas rompido pelos ruídos de alguns animais e aves. A lua cheia à beira do riacho foi um espetáculo à parte. São esses raros momentos de oásis, na turbulência e violência em que se encontram a maioria das aldeias e acampamentos. Eliseu, liderança que representa a Aty Guasu e movimento Kaiowá-Guarani, na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB construiu, na aldeia, uma casa para receber os visitantes. Passamos aí uma noite maravilhosa. Andar nas trilhas da mata e sentir um pouco do bem viver que procuram aí construir, é um privilégio.
Em Nhanderu Marangatu nos informaram que continua a pressão e violência contra a comunidade e o meio ambiente. Loretito informou que continuam tirando postes da terra indígena, e ameaçando os membros da comunidade. Ele espera que essa situação se resolva o quanto antes. Para isso enviaram documento À comissão do Conselho Nacional de Justiça, que irá tratar especificamente sobre a questão das terras indígenas no Mato Grosso do Sul. A primeira reunião será no dia 15 deste mês, em Brasília. No documento pedem empenho e prioridade para a situação desta terra indígena “por ser emblemática em termos das terras indígena no MS e ao mesmo tempo ser dramática, pois ali vivem mais de mil pessoas em 127 hectares.”
Na Terra Indígena Amambai, participamos de um encontro do Movimento dos Professores Kaiowá-Guarani, que já são mais de 300. Há 17 anos o movimento vem tomando várias iniciativas, dentre as quais o encontro anual, que neste ano será no início de outubro na aldeia de Pirakuá. Discutiram sobre o Território Etnoeducanional do Cone Sul, que abrange as comunidades Kaiowá Guarani. Mas principalmente buscaram fazer uma autocrítica do movimento e traçar algumas estratégias com relação a vários problemas e retrocessos com relação à educação escolar indígena. Repudiaram as palavras discriminatórias e racistas do governador do estado com relação aos direitos, lutas e realidade do povo Kaiowá Guarani.
Destruição dos barracos de Pyelito Kuê e Mabarakaí
Ontem à noite o grupo da retomada, enquanto estavam mudando o acampamento para outro lugar dentro da mesma mata, na fazenda Santa Rita, chegaram capangas da fazenda e destruíram os barracos e levaram o que nelas restava, inclusive, a lona. A Fazenda é de propriedade da família do prefeito de Iguatemi José Roberto Filippe Arcoverde (Midiamax, 14-08-11). Há três dias a polícia federal esteve na sede da fazenda informando da presença dos índios, para que não houvesse violência. Porém os Kaiowá Guarani acampados, que foram vítimas de violência em momentos anteriores, temem que se possa repetir um ataque de pistoleiros. Por esta razão solicitam a presença da polícia federal na região para evitar semelhantes ações.
A um dos membros da Aty Guasu, que desde o inicio da retomada deu total apoio a seus parentes na luta pelo seu tekohá, externou sua confiança de que não haja violência que os órgãos responsáveis pela demarcação e garantia das terras indígenas resolvam a questão das terras indígenas Kaiowá Guarani o mais rápido possível.
Quando da nossa passagem na aldeia de Sassoró nos encontramos com Marcia, esposa de um dos líderes do acampamento. Ela expôs a Eliseu as apreensões e dificuldades do grupo. Além da tensão e temor de ataques, estão necessitando com urgência de alimentos.
Tudo muito estranho
No dia 12 de agosto Emilio Pedro, de 56 anos, do acampamento Guirá Kambi’y, município de Douradina, saiu para trabalhar um pouco no seu roçado. Na manhã do dia seguinte foi encontrado enforcado, próximo a um córrego. A comunidade ficou perplexa. Ele era um dos Nahnderu (lideres religiosos) que com muito entusiasmo e alegria recebia com reza ritual todos os visitantes. Recordo-se de seus gestos acolhedores quando há uma semana, estivemos com a comunidade entregando os convites para a Aty Guasu. Ele era um dos que iriam ao importante evento que estará se realizando na aldeia de Passo Piraju, município de Dourados, de 19 a 22 deste mês.
Um dos conselheiros da Aty Guasu esteve na comunidade, participando do velório e do sepultamento hoje, no dia dos pais. Apenas comentou “Tudo muito estranho”.
Emilio deixou seis filhos e a esposa Vilma Quevedo. Apesar da dor sentida pela comunidade, terão que superar esse sofrimento buscando novas energias para continuarem a vida na luta pela terra, no acampamento. Nós da equipe do Cimi nos solidarizamos com os familiares e a comunidade, na certeza de que a luta continua, e que a vitória da terra está próxima.
Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 14 de agosto de 2011.