Sobre as vozes de Ameríndia

NOTA DE ESCLARECIMENTO. A resenha a seguir foi publicada originalmente na Revista Brasileira de Literatura Comparada. Trata-se das reflexões de Zilá Bernd, para o livro “Vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense”, de Rita Godet. Esse livro encontra-se também, no formato PDF. Para compartalihar a rsenha de Z. Bernd, neste blog, solicitei permissão à pesquisadora Rita Godet que, muito gentilmente, concordou com a postagem. Às pesquisadoras Godet e Bernd: eterna gratidão por acolher os meus escritos. Saudações indígenas, Graça Graúna.

LEITURA COMPARADA INTERAMERICANA DA LITERATURA AMERÍNDIA

AN INTERAMERICAN COMPARATIVE INTERPRETATION OF AMERINIDIAN LITERATURE

Zilá Bernd1

Resumo: Em seu último livro, Rita Olivieri-Godet desvela as vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense, elaborando uma reflexão aprofundada e sensível sobre a obra de duas escritoras indígenas do Brasil e duas do Quebec.

Palavras-chave: Rita Olivieri-Godet; Eliane Potiguara; Graça Graúna; Naomi Fontaine; Natasha Kanapé Fontaine

Keywords: Rita Olivieri-Godet; Eliane Potiguara; Graça Graúna; Naomi Fontaine; Natasha Kanapé Fontaine

OLIVIERI – GODET, Rita. Vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense. Rio de Janeiro: Makunaima, 2020. (http://edicoesmakunaima.com.br/catalogo/2- critica-literaria/38-vozes-de-mulheres-amerindias-nas-literaturas-brasileira-e-quebequense)

A temática abordada neste recente livro da professora Rita Olivieri-Godet, da Universidade de Rennes 2 e pesquisadora do Institut National de France, é das mais relevantes já que ainda vivemos no Brasil e nas Américas em geral, tempos de apagamento, de silenciamento de obras e autores que não trafegam no main-stream literário. Assim, só recentemente a literatura negra ou afro-brasileira vem sendo estudada, revelando-se sua presença efetiva nas letras brasileiras. A literatura indígena, ou como Rita Olivieri-Godet prefere chamar, ameríndia, talvez tenha merecido ainda menos atenção permanecendo ausente até bem recentemente. Salientem-se os estudos de Eloína Prati dos Santos (UFRGS) e de Rubelise da Cunha (FURG) que envidaram esforços nesse sentido, publicando estudos sobre Eliane Potiguara e sobre autores autóctones de língua inglesa do Canadá.

Rita Olivieri-Godet que, de sua cátedra de literatura brasileira em Rennes II, vem tornando visível a literatura brasileira para o leitorado francês, interessa-se há bastante tempo pelas literaturas ameríndias, tentando com suas pesquisas desfazer a invisibilidade que as cerca. Em 2013, publicou A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas (Brasil, Argentina, Quebec), pela editora Fino Traço, de Belo Horizonte. Nessa obra, a autora procurou retraçar as representações ou figurações da alteridade ameríndia nas literaturas brasileira, argentina e quebequense. Trabalho pioneiro e de grande fôlego revelado pelo alentado número de escritores estudados entre os quais Antonio Torres, Gérard Bouchard e Juan Jose Saer.

Seu interesse pela temática estava apenas começando. Em 2018, publica com Rachel Bouvet, um conjunto de textos sobre a geopoética dos confins, desvendando o imaginário das literaturas nômades e inuits em emergência durante o século XX. Em 2019, suas pesquisas sobre as vozes de mulheres ameríndias são reunidas na importante publicação intitulada Ecrire l’espace des Amériques : représentations littéraires et voix de femmes amérindiennes, publicado pela editora P.I.E. Peter Lang (Nova York), na Coleção Brazilian Studies, vol. 5.

Na presente publicação da editora Makunaima, Rita Olivieri-Godet desvela as vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense, brindando os leitores brasileiros com reflexão aprofundada e sensível sobre a obra de duas escritoras indígenas do Brasil e duas do Quebec, portanto, sobre escritoras que se exprimem em língua portuguesa e em língua francesa no território das Américas.

Eliana Potiguara e Graça Graúna são o destaque em língua portuguesa, enquanto Naomi Fontaine e Natasha Kanapé Fontaine são as autoras escolhidas do Quebec, província francófona do Canadá.

Eliane Potiguara está entre as primeiras a assumir a tarefa de descolonização de sua etnia, dando voz, pela primeira vez, em toda a história da literatura brasileira, àqueles que, embora tenham sido protagonistas da História do Brasil, foram silenciados durante todos estes anos. Merece destaque a dimensão híbrida da escrita de Eliane Potiguara, sublinhando em seu livro Metade cara, metade máscara, de 2004, o ponto de vista da mulher indígena que assume-se como sujeito da enunciação. Rita Olivieri-Godet destaca o importante papel da autora na denúncia da violência colonial e pós-colonial, apontando a metamorfose de identidade, “correlacionada à potencialização da voz”.

É interessante ressaltar a importância, na obra poética de Eliane Potiguara, da memória ancestral: será somente ao reivindicar o legado da memória intergeracional que a identidade ameríndia vai sendo reconquistada:

Graça Graúna que é, além de poeta e ensaísta, professora universitária, desenvolve estratégias de sobrevivência para a cultura indígena através de várias coletâneas, entre as quais se destaca Tear da palavra, de 2007. Rita Olivieri-Godet sublinha também na obra de Graúna a intenção de reapropriar-se de suas referências culturais ameríndias, grande ausente do panorama cultural brasileiro. A poeta busca reinventar o lugar da poesia através do diálogo com os resquícios da memória ancestral, buscando representificar essa falta ao identificar-se com os demais excluídos, como os afro-descendentes, inaugurando, desta forma, um diálogo tanto no plano político quanto no literário. Expropriada do território geo-cultural de seus ancestrais, Graúna produz o que Rita Olivieri-Godet chama de “discurso transcultural”, caracterizado pelo reconhecimento dos elementos da perda, os quais são compensados pela reinvenção de elementos culturais novos.

Ao fazer a leitura da obra Kuessipan (2011), de Naomi Fontaine, da literatura do Quebec, Rita Godet destaca o destino trágico do povo innu2 , ressaltando os vínculos históricos dos povos autóctones com seu território. Na obra, a poeta questiona a segregação e recusa o confinamento nas reservas, que são espaços designados pelo governo, mantendo, assim, os povos indígenas segregados do resto dos habitantes do Canadá. Pertencendo a uma nova geração de poetas, Naomi Fontaine manifesta um sentimento ambivalente em relação à sua comunidade de origem, que é ao mesmo tempo de pertencimento e de desejo de abandono.

Em Kuessipan (que significa “para ti”) Naomi Fontaine faz uma leitura intimista da reserva de Uashat que o sociólogo, historiador e romancista quebequense Gérard Bouchard descreveu em seu romance de mesmo nome de modo mais dicotômico, opondo a vida na reserva à vida nas cidades. Na leitura de Rita Olivieri-Godet, a narrativa de Naomi Fontaine faz um elogio do nomadismo e uma crítica do confinamento imposto pelo governo aos innus. “Nômade: gosto de conceber esse modo de viver como natural” (Fontaine, 2011, p. 22), explicita a autora, rendendo homenagem à característica de nomadismo dos povos autóctones e reivindicando essa característica como herança ancestral. Na visão da autora, da transmissão da herança depende o devir dessa comunidade: “Da transmissão da experiência do território tradicional dependia a sobrevivência material e cultural dos innus” (Olivieri-Godet, p. 95).

Natasha Kanapé Fontaine, também da linhagem de autoras ameríndias do Quebec, é a quarta e última autora estudada na obra que ora resenhamos. Natasha é militante dos direitos autóctones e ambientais e também poeta, atriz e pintora. É autora de N’entre pas dans mon âme avec tes chaussures (2012, prêmio de poesia da Sociedade dos Escritores Francófonos da América); do Manifeste Assi (2014); de Bleuets et abricots (2016) et Nanimissuat Île-Tonnerre (2018), sendo uma das escritoras mais produtivas da nova geração de autoras ameríndias.

Como as demais autoras, anteriormente estudadas por Rita Olivieri-Godet, Natasha realiza em suas obras o trabalho de recuperação memorial e de reapropriação do território geocultural de seus ancestrais, acrescentando o dever de memória de preservar e de transmitir essa herança, garantindo assim sua sobrevivência nos corações das futuras gerações.

As quatro escritoras vivem entre dois mundos. Rita Olivieri-Godet destaca em todas elas a prática de uma escrita da sobrevivência e uma determinação de incluir a presença autóctone no âmbito da literatura contemporânea. Se em trabalhos anteriores Rita Olivieri-Godet estudou a representação da presença autóctone em obras de autores contemporâneos, aqui ela traz aos leitores as vozes de mulheres ameríndias, analisando suas obras na perspectiva das relações literárias interamericanas, que é aliás nome do GT da ANPOLL ao qual nós duas pertencemos e no âmbito do qual desenvolvemos um comparatismo literário inter e transamericano.

REFERÊNCIAS:

GODET, Rita Olivieri. A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas (Brasil, Argentina, Quebec). Belo Horizonte: Fino Traço, 2013.

SANTOS, Eloína P. dos. A autoinclusão da literatura indígena contemporânea no cânone brasileiro: uma herança cultural a ser reconhecida. Revista literatura em debate, v. 12, p. 107- 121, 2018.

Notas:

1 Professora da Universidade LaSalle, Canoas RS/Brasil; Bolsista PQ CNPq – 1 A – https://orcid.org/0000- 0002-2546-6099; zilabster@gmail.com / zila.bernd@unilasale.edu.br

2 As denominações “Innu” e “innuit” não são intercambiáveis; enquanto innu se refere aos indígenas que habitam a área, que denominam de Nitassinam (Our Land), e que corresponde à região onde hoje se situa a província do Quebec, os innuit são originários do Ártico, tendo sido por muito tempo chamados pelos brancos de “esquimós”.

Zilá Bernd é professora titular aposentada do Instituto de Letras da UFRGS e professora do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Bens Culturais da Universidade LaSalle/Canoas/RS. É pesquisadora 1 A do CNPq ; foi presidente da ABECAN (Associação Brasileira de Estudos Canadenses) e do ICC-CIEC (International Council for Canadian Studies). Recebeu a Ordem Nacional do Quebec e das Palmes académiques, ambas nos graus de chevalière et officière. Fundou a revista Interfaces Brasil Canadá, em 2001, permanecendo como membro do conselho editorial até os dias atuais. Entre suas publicações recentes, estão: A persistência da memória. Porto Alegre: Besouro Box, 2018; La persistance de la mémoire: les romans de l ́antériorité et leurs modes de transmission intergénérationnelle. Paris: Société des écrivains, 2018 e BERND, Z.; IMBERT, P.; OLIVIERI-GODET, R. (dir) Espaces et littératures des Amériques; mutation, complémentarité, partage. Québec : Presses de l ́Université Laval, 2018.

(Submetido em 03/05/2020. Aprovado em 13/06/2020)

Rev. Bras. Lit. Comp. Niterói, v. 22, n. 41, pp. 132-135, set. /dez. 2020 https://doi.org/10.1590/2596-304X20202241zb

“Cartas pedagógicas”

Não é todos os dias que temos a oportunidade de aprender sobre humanidades. Essa oprtunidade tem data e hora marcada para ver e ouvir o querido colega, amigo e educador Agostinho Rosas. Ser Educador é ter consciência da imprtância do ato de ler, como nos ensiou o grande Paulo Freire; ser educador é ser confessor de sonhos, como sugere o parent’amigo indígena Daniel Mundurucu; ser Educador é refletir com amorosidade sobre o direito que nos é assegurado: o direito de viver um mundo melhor. Por uma educaçao libertadora sempre,

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Ailton Krenak vence o prêmio de intelectual do Ano

Ailton Krenak, no Congresso da Abralic/UFU.
Crédito da foto: G.Graúna

Apesar da pandemia, as notícias sobre literatura indígena ganham destaque. No início de setembro de 2020 foi noticiado o nome do vencedor do Premio Nacional de Literatura no Chile: Elicura Chihuailaf (povo mapuche)1. Da sua manifestação artística, cabe sublinhar que a sua poesia fala do sonho que se escuta ao pé da fogueira ou do fogão; dos diferentes sabores que exalam da terra; do cheiro da mata e do estrondar do trovão, como sugerem os versos do livro “Sonho azul”, do poeta mapuche. Para saber mais da poesia de Elicura, confira a resenha neste blog. No Brasil, a literatura indígena também ganhou destaque. Na segunda quinzena de setembro, a União Brasileira de Escritores (UBE) anunciou que o prêmio de intelectual do ano foi concedido ao indígena Ailton Krenak: ambientalista, escritor e uma das maiores lideranças do movimento indígena no Brasil.

Krenak: literatura e indignação

Entre as contribuições de Ailton Krenak, o livro “Ideias para adiar o fim do mundo” questiona “a forma que os brancos adotam para viver, abrindo mão da liberdade de estar em contato e em harmonia com a natureza”2. Esse livro foi destaque no Globonews, em 2019. Ao ser entrevistado nesse canal, Krenak falou da relação que algumas culturas mantêm com o sagrado. Nesse contexto, ele destacou a maneira como o Rio Ganges é respeitado pelos indianos e falou com indignação sobre o desrespeito e o descaso com que os rios são tratados no Brasil.

Sobre o ativismo de Ailton é importante ressaltar a participação desse líder na Assembleia Nacional Constituinte, em setembro de 1987; uma Assembleia marcada pela defesa da Emenda Popular da União das Nações Indígenas e pelo discurso histórico de Ailton, ao denunciar a política anti-indígena. É fundamental o pensamento de Krenak para a compreensão do nosso papel no mundo. Não é à toa que ele indaga sobre o que justifica ser parte de uma humanidade em que mais de 70% parece totalmente alienada do exercício de ser. A resposta de Ailton aponta para a desenfreada modernização, entre outras questões que quase ninguém vê:

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra barata em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se essas pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.3

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. Desses livros, citamos:  “A vida não é útil”. O autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

O que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

Na quarentena do corona-vírus, as redes sociais contribuíram para a divulgação de livros escritos por indígenas. No livro  “A vida não é útil”, o autor adverte que “civilizar-se” não é um destino; ele critica os “consumidores do planeta” e questiona a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.

No formato e-book, disponível de forma gratuita, “O amanhã não está à venda” alerta que “a pandemia da Covid-19 obriga o mundo a reconsiderar seu estilo de vida”.

As contribuições do autor indígena se transformam em convite para as pessoas combaterem o consumismo; o racismo, a discriminação racial e outras formas de intolerância. Nesta perspectiva – ao refletir acerca da relação entre literatura e direitos humanos no pensamento de Krenak –  faz-se necessário sublinhar as palavras de Antonio Candido: “a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela”4.  

Sobre a manifestação poética em Ailton, considero importante compartilhar os versos que ele enviou (em depoimento pessoal, por telefone). Trata-se do poema intitulado “Um outro céu”; do ser indígena que evidencia a inquietação, a incerteza nas dobras do tempo que atinge todos em tempos de pandemia.

Para “concluir” esta breve reflexão, torno a perguntar: o que a literatura indígena tem a dizer nesse tempo de pandemia?

A sociedade dominante tem muito a aprender com os povos originários. Pensando assim, reitero o papel da memória vinda dos povos indígenas; falo da importância que é o plural da voz do texto, porque é do coletivo que brota a esperança da terra. É esta a impressão que sempre carrego, quando escuto e leio as histórias, os cantos, os rezos xamânicos, a poesia que fazem parte do jeito de ser e de viver dos povos originários; quer seja na apreensão dos saberes historicamente construídos; na afirmação dos valores ancestrais e na luta de cada dia pelo fortalecimento da identidade, entre outros direitos indígenas; enfatizando, aqui, a demarcação de território.

Ameríndia, 29 de setembro de 2020

NOTAS

  1. Para saber mais, confira a resenha “Elicura, poeta mapuche…”, disponível em: https://gracagrauna.com/2020/09/12/elicura-poeta-mapuche-premio-nacional-de-literatura-2020/
  2. Entrevista ao site Amazônia real. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/. Acesso em, 29/09/20.
  3. GRAÚNA, Graça. Literatura indígena: espaço de (re)construção, resistência e protagonismo na produção cultural brasileira. In: SESC. Educação em rede, vol. 7, Rio de Janeiro: Sesc, 2019, pp. 106-120.
  4. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In; ______. Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 242.