A imprensa não vê

Foto: Graça Graúna. Tsurus – tema de um dos muitos cartazes espalhados pela Feira Pan-Amazonica do Livro, que homenageou os 100 anos da imigração japonesa
Nunca é demais refletir acerca da exclusão que há mais de 500 anos sofrem os nossos parentes indígenas. Recentemente estive participando de uma mesa-redonda sobre Literatura Indígena, na XII Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém-Pará. Confesso que fiquei maravilhada com o vai e vem constante de pessoas curiosas em torno do universo do livro. Da mesa participaram o Daniel Munduruku, o Yaguarê Yamã e eu – Graça Graúna – como mediadora. É certo que fomos bem acolhidos pela organização do evento; estivemos em um hotel muito chic, tivemos transporte. No Hotel, tivemos contato maravilhoso, ainda que relâmpago, com outros escritores: Ariano Suassuna, Marina Colassanti, Afonso Romano de Santana, Rubem Alves….Até aí, tudo bem….mas nos cinco dias da Feira de Livros quase nada foi mencionado na mídia a nosso respeito. Pra não dizer que não falaram de flores, apenas copiaram a programação geral do evento e com muito esforço, com uma lupa, seria possível ver o tema da nossa mesa-redonda que tratou da oralidade e da escrita no universo da cultura indígena. Os nossos nomes sequer aparecerem. O Yaguarê, o Daniel e eu entendemos, logicamente, o recado; fomos convidados sim, fomos bem tratados sim, mas não tivemos voz o suficiente para marcar a nossa presença no planeta do livro pan-amazônico. A platéia de professores e estudantes que nos prestigiou foi a nossa força também naquele dia em que os jornais estampavam mais as “socialaites” e por que haveriam de estampar a imagens de três escritores indígenas? Apesar de tudo, deixamos nossos recados. Tivemos um encontro com os pesquisadores mirins no Museu Goeldi; visitamos outros museus, como brasileiros também que somos zelosos da nossa história. Ainda deu tempo de conhecer uma bela família Munduruku que nos recebeu a todos com grande alegria. Caminhamos em Belém….passeamos peloVer-o-Peso, admiramos nossos irmãozinhos urubus aos montes, lá nas docas; sentimos o cheirnho gostoso do Pará e o levamos impregnado em nossa roupa, em nossa pele, no nosso espírito. Ora…também nos reconhecemos em meio a tantos irmãos e irmãs excluídos(as) e nos damos conta que somos mais que 300, somos milhares ainda a acreditar na força das águas dos igarapés. Somos fortes ainda; caminhamos fortes, mas isso os jornais não contam. Depois eu volto.

Paz em Nhande Rú ,
Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Ao escrever, dou conta da ancestralidade;
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo (Graça Graúna)

Café com Poesia II

VENHA SABOREAR ESSE “CAFÉ” POÉTICO CONOSCO.
CONVITE

O SESC GARANHUNS, através da Atividade Cultura, tem a honra de convidar V.Sa., digníssima família e amigos, para prestigiarem ao Projeto “Café com Poesia”. O projeto contará com a presença ilustre da conceituada escritora e professora universitária Graça Graúna. Desta vez a intervenção musical ficará por conta do talentoso músico Léo Noronha que interpretará belíssimas canções de nossa MPB em sintonia com o painel temático –
O SER E O TEMPO DA POESIA EM GRAÇA GRAÚNA ”.
 Escrevivência

Ao escrever,
dou conta da ancestralidade;
do caminho de volta,
do meu lugar no mundo”

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

SERVIÇO
PROJETO CAFÉ COM POESIA
DIA: Terça-feira 30 de setembro
HORA: 19h e 30 min
LOCAL: Salão de eventos Jaime Pincho

Entrada Franca!

Serra do Mar

Imagem: http://www.inventionweb.com.br/

a história foi se formando na paisagem:

nem poluição
nem violência nas ruas

nem jogos sofisticados
nem roupas de grife

barulho nenhum de automóveis
só a voracidade do vento passando por lá

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 40.

Nota:
“As migrações dos Guarani Mbyá, em direção ao mar, estão ligadas à procura da Terra sem Mal. Eles buscam a terra prometida (Yvi Mara Ey) neste mundo ou em um paraíso mítico além da Terra. Para os índios Guarani de Bracuí, há três possibilidades para a identificação deste local: depois do mar, no céu ou no Paraguai (centro da terra). O mar ocupa um lugar central na tradição Mbyá. Ao mesmo tempo que ele é um obstáculo para o Guarani transpor e atingir o paraíso – o ponto de chegada-, é , nas suas proximidades, que o destino desse povo pode se realizar. A predileção dos Guarani Mbyá pela Serra do Mar – ao invés da orla, como os antigos Tupi – adquire uma significação especial para esses índios devido ao mito de origem da terra. Ela é o dique do mar (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva).
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