Dádiva

The Cafe Terrace, Van Gogh
A sensação de quem vive ou está só
pode ser comparada a uma pedra
que emerge da escuridão da terra
qual diamante que brilha feito sol.
A solidão é dádiva da vida
é meta suprema, dá força ao ser
embora não seja para todos
a solidão faz parte do crescer
ainda que da prisão a luz sufoque
e as chagas do tempo libertem o ser
a resistência desabrocha enfim
e ao perceber o reflexo da clausura
é acolhendo o interior da pedra
que se compõe a leveza do ser
Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 22 de maio de 2009
NOTA: poema publicado no Overmundo.

Aguata py’ýi (Acelerar os passos)*

Imagem: Onnil, 2005

…e se mil línguas eu também tivesse
levaria teu sonho entre as estrelas
e lá no centro da terra
eu diria: salve negríndio Ademario!Assim deve ser, assim será
a cada brilho da noite
a cada chama do dia
bem digo a Ñanderu
Nosso Pai verdadeiro:
recebe meu Pai a alquimia da palavra
dos filhos e filhas da terra
recebe nossa alegria e os nossos sonhos
recebe também nossos desencantos
porque somos tua herança
assim também ressurgidos
mas não somos um, nem cem, nem mil
somos infinitamente filhos da resistência
somos parte do teu ser
Potiguara, Guarani,
Tukano, Xavante,
Sateré, Nambikuara,
Pataxó, Truká,
Terena, Munduruku,
Payaya, Fulni-ô
Xukuru, Tupi,
Yanomami….yanomami….
todos os povos
todas as nações
somos todos
do abaeté da lagoa do Senhor do Bomfim
das ladeiras de Olinda do canavial
da serra do vento da serra do mar
de Norte a Sul
de Leste a Oeste
do Oiapoque ao Chui
somos teus somos nossos
e como diria Ademario
vamos todos assim
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”
– Aguata py’ýi!
“Acelerar os passos!”

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), abril indígena 2009

(*)Aguata py’ýi (em guarani: acelerar os passos)
Nota: poema publicado no Overmundo com 111 votos.

Canto submerso

Imagem Google. Moça na janela, de Salvador Dali.

…se a água em que me deito
é a mesma que te banha,
porquê não ouvir a voz do aflito mar?
– Carpe Diem! Aproveite o dia!

Mas veio a onda de mar levado
e deitou seus búzios
ao meu amado
agora e para sempre
submerso na paisagem marinha

Graça Graúna (indígena potiguara/RN), 25.jan.2009