Serra do Mar

Imagem: http://www.inventionweb.com.br/

a história foi se formando na paisagem:

nem poluição
nem violência nas ruas

nem jogos sofisticados
nem roupas de grife

barulho nenhum de automóveis
só a voracidade do vento passando por lá

Graça Graúna (indígena potiguara/RN)

Graça Graúna. Tessituras da terra. Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 40.

Nota:
“As migrações dos Guarani Mbyá, em direção ao mar, estão ligadas à procura da Terra sem Mal. Eles buscam a terra prometida (Yvi Mara Ey) neste mundo ou em um paraíso mítico além da Terra. Para os índios Guarani de Bracuí, há três possibilidades para a identificação deste local: depois do mar, no céu ou no Paraguai (centro da terra). O mar ocupa um lugar central na tradição Mbyá. Ao mesmo tempo que ele é um obstáculo para o Guarani transpor e atingir o paraíso – o ponto de chegada-, é , nas suas proximidades, que o destino desse povo pode se realizar. A predileção dos Guarani Mbyá pela Serra do Mar – ao invés da orla, como os antigos Tupi – adquire uma significação especial para esses índios devido ao mito de origem da terra. Ela é o dique do mar (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva).
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Quase-haikai I

Espantalho, de Portinari
1.
Braços para o infinito
o espantalho subverte
a ferocidade do mundo2.
Entre o sono e a vigília
o canto da cigarra
inunda o sertão

3.
Noctívaga dor-em-dor
pouso na árvore do mundo
clandestina

4.
Porque és pedra
o que dirá a poesia
sem a tua presença?

5.
Dias de sol
distendo as velhas asas
num hai kai latino

Graça Graúna. Hai kais. In: Canto Mestizo, 1ª parte. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 17-21.

Quase idílio


  

Foto: Lucypassos

…vontade de ficar numa rede
recitar poesia
corresponder aos teus abraços e mais coisas….

quero ao pé da fogueira
ouvir o velho Gonzaga
e profundamente
amar você

– Ao som dos foguetes lá longe
as árvores rodeando, nos vigiando.

– O frio, a gente conversando, lendo na rede
(eu adoro rede e tenho uma que uso para ler)
uma rede para nós dois
nosso leito nupcial

Ao pé da fogueira, tanta coisa!
O licor e o milho
o beijo para dar
o abraço e mais coisas…

uma noite de São João
era uma vez
a festa que ele esperou
e ela também, o ano inteiro.
Num instante, tudo se desfez
e só restou a canção

—- * —-

“Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci” (Bandeira).

Hoje, aos sessent’anos
leio Bandeira
Profundamente

Graça Graúna (indígena potiuara/RN)
Nordeste do Brasil, 25.jul.2008
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